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"A caverna de Platom e a nossa caverna"

Domingos Antom García Fernandes

Fai-se umha leitura livre de aquila caverna em que os prisioneiros, virados de costas para a entrada e algemados de pescoço e pernas, olham apenas para umha parede traseira. Tudo o seu mundo seriam as imagens projetadas em tal muro e os ecos que som ouvidos. E isto fai-nos pensar em que na nossa caverna neoliberal também estamos amarrados a um mundo de apariências dentro dumha combinaçom de quadros económicos, sociais, políticos e simbólicos. Estamos sujeitados a umha classe social, a umha linguagem, a umhas instituiçons (famílias, escolas, Estado, et cetera) que difundem um modo de ver; os mídia e Internet configuram tuda umha cosmovisom; assim mesmo o mundo do cinema e da TV, que permitem mirar sem que o nosso corpo esteja ali, som tuda umha insidiosa caverna. E sair dela é um processo de conhecimento que, ao modo platónico, arranca da doxa (opiniom) ou conhecimento daquilas imagens projetadas e também dos seres vivos e dos objetos conhecidos por umha fé sensorial, percorre um mundo hipotético (os dados dispersos dos sentidos devem ser submetidos ao proceder da ciência de face a formular teorías que coloquem ordem na multiversidade sensorial. Tratar de entender…). Mas outra etapa ainda é necessária: o conhecimento nom-hipotético, <<nóesis>>, a filosofia como um saber de ideias, um saber de segundo grau que vem de se apoiar em saberes prévios (de primeiro grau), de forma especial os saberes científicos.

A modo de exemplos diste sair da doxa (das opinions comuns, usuais) da globalizaçom neoliberal: quando se di privado, num sistema de intercámbio desigual, significa que os menos podem satisfazer necessidades secundárias a seu bel-prazer, enquanto os mais nom podem cumprir as primárias; aperceber-se de que os mídia, os grandes conformadores da opiniom pública, som invadidos por políticos e jornalistas com dono – a eles acude pouco a gente comum, tampouco peritos ou filósofos… -, por aquiles que tenhem a política como profissom, a Igreja católica que se resiste a perder poder e privilégios, as vítimas anónimas, mais publicitadas, decerto que enviesadamente, por porta-vozes, os que se afanam por estar nas grandes metrópoles e marcar a partir das mesmas a centralizaçom das empresas e a deslocalizaçom da produçom… Quando se produzem polémicas a respeito de educar em valores pensa-se numha análise científica e filosófica ou apenas na possibilidade de doutrinaçom e há pugna por o fazer uns ou outros? Ao falar de línguas que nom se perdem, já que podem arquivar-se, estám a pensar na proposta de cancelar mundos simbólicos diante de interesses unidimensionais e imperialistas? Ao falar de guerras descobrem-se os negócios das empresas armamentísticas, das empresas de construçom…, desvendam o lado escondido e mascarado das mesmas? Quando se está a falar de incrementar o estudo de idiomas vai-se além de reivindicaçons gremiais, existe preocupaçom por alargar o que dérom em chamar <<cultura>> ou será outra forma de ingressar no negócio do turismo, ou talvez, e isto já fai parte do impensável, será umha forma mais de incorporar um saber de superfície, aparente, para se comunicar sem ter nada que comunicar, para ir em detrimento das ciências e de saberes críticos, para se manter no nível do inócuo…? E por completar a interrogante anterior: falar de questons físicas, biológicas, químicas, filosóficas… nom é praticar línguas? E ainda mais, se é conhecido que a idade dos idiomas som os primeiros anos (as palavras nascem entre mamadeiras), que a habilidade lingüística princípia a esfumar-se arredor dos seis anos e que aos doze teria de se dar um domínio quase completo, qual é o porquê de tanto afanar-se em invadir com línguas, seria muito malévolo supor que é para ter a gente ocupada, entretida, incorporada ao consumo e longe de qualquer conteúdo crítico?

Outra pergunta mais: ao reclamar vias de comunicaçom está a se pensar nas necessidades reais, na vertebraçom dos territórios…, ou no lucro das empresas que pensam construir tais vias? E está presente por algum lado a questom ecológica?

Para que continuar? Como diria Karl Marx, há que separar o núcleo racional da cortiza mística.

Os saberes críticos tenhem de trascender os fenómenos e praticar as filosofias da supeita. De modo semelhante a Platom, que foi quem de denunciar a pseudodemocracia da Atenas da sua época e a injusta morte do seu mestre, Sócrates, temos hoje de ser beligerantes com a caverna neoliberal e denunciar com Marx o fetichismo da mercadoria e a reificaçom das pessoas (mais explicar isso fica para outra circunstância).

Há já uns quantos anos escrevia que se produz “umha defesa da igualdade nos púlpitos da política, das igrejas, dos congressos de gente bem-pensante com múltiplas atividades para distrair um público passivo, consumidor, prolongador exponencial do fetichismo da mercadoria… Emoçons a dar com um pau, aplausos, mas tudo fica igual… Um mundo de palavras que esconde a miséria do mundo. Revoluçons verbais para furtar as reais… Embora, quando o combate é pola igualdade nom formal e se questiona com obras o domínio do Capital, entom alastra-se e propala-se o silêncio dos mídia (…). O sistema ocupa-se de controlar e esmagar, se for preciso, o protesto – e nom estou a me referir à pressom militar-policial, aliás à precariedade laboral que reparte, desagrega moços e moças pola totalidade do país e (…) na emigraçom- . Sabem bem que a boca acaba por truncar os anseios de socialismo.”

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