Em 1971 Agostinho da Silva escreve uma carta a que chama “Compostela” e que tem como subtítulo “Carta sem prazo a seus amigos”.

Ora, não só tudo o que escreveu ultrapassou largamente qualquer prazo, estando ainda hoje à frente do nosso próprio tempo, como isso me tranquiliza relativamente ao conteúdo desta crónica, que pretendo de inspiração quer Agostiniana, quer natalícia. Se sair já depois do Natal, Agostinho salva-a do tempo.

Tem esta carta “Compostela” o objectivo de reunir amigos e companheiros, alunos e ex-alunos, sendo que esta reunião se faria por Correio. Uma espécie de “convento”, visto que é essa a etimologia da palavra reunião, um convento virtual, como hoje se diria, uma “live” em forma de cartas e transportada pelos Correios. Que na altura, apesar da escassez de meios, funcionavam muito melhor do que hoje. Ele escreveria “de vez em quando” uma carta “sobre os assuntos que me interessam” e “sobre as respostas se teceria outra carta”. Compostela seria o “sinal de reunião”, por a este santo terem acorrido e continuarem a acorrer “homens da Europa e do mundo como a um lugar de muito mais profunda unidade do que o Conselho de Bruxelas com suas disputas de pepino e manteiga ou o Parlamento de Estrasburgo, olhado com desconfiança pelos que defendem a Europa das pátrias, que às vezes, parece-me, confundem bastante com a dos patrões.” Discorre seguidamente sobre a possibilidade de aquele que está enterrado como Santiago não ser o santo, afirmando que isso não tem importância, pois o que que releva de tudo são os milagres que faz e não o objecto da fé, mas a fé em si mesma.

Seguidamente, e era aqui que eu queria chegar neste tempo de Natal e de Magos, refere o “caminho de estrelas” por onde se vai para Santiago, recomendando para “Campus Stellae”, possível origem da própria cidade, a tradução “Campo da ou de uma Estrela”, explicando a recomendação desta versão “por deixar a estrada aberta para qualquer nova estrela que surja ou inventemos”.

Compostela

Aqui continuo eu a Carta Santiago juntando a minha imaginação à Estrela e desejando que os magos do Oriente, à sua aproximação ao presépio, e já que aqui estão, façam um pequeno desvio por Compostela e tragam em suas auras o espírito de reunião que os anima e os faz vir todos os anos de tão longe, a que acrescentarão o espírito de reunião que se respira em Compostela. De passagem pela Estremadura recolherão a canção de embalar (e assustar): “Anda durmete nino/que viene el coco/ a comere nos ninos/ que durmem poco”, cuja origem alguns também atribuem a Trás-os-Montes, outros à Galiza.

Seja como for, acho boa esta ideia de deixar o caminho aberto aos Magos. Um dia, se não foram já, irão a Compostela. São pessoas para isso…

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Colaboradora Portuguesa

Risoleta C. Pinto Pedro, nascida em Elvas, é autora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, ensaio, crónica periodística e radiofónica (Antena 2), conto infantil e BD, assim como ópera, canção, cantata e musical, tendo escrito libretos a convite dos compositores Jorge Salgueiro, Paulo Brandão e Helena Romão, com incursões também na escrita para dança (Companhia de Dança Amalgama). Tem mais de vinte obras publicadas, para além de colaboração em revistas, catálogos, manuais e colectâneas. Na ficção recebeu o Prémio Revelação APE/IPBL, O Aniversário, 1994; Ferreira de Castro (A Criança Suspensa 1995), tendo sido duas vezes distinguida na poesia pela Sociedade da Língua Portuguesa. Foi professora de Literatura em várias escolas, nomeadamente, e durante mais tempo, na Secundária Artística António Arroio. Tem escrito e feito conferências sobre as obras de: Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Sebastião da Gama, Bocage e Jaime Salazar Sampaio, entre outros. Mais recentemente, tem estudado, escrito e publicado ensaio sobre a obra dos filósofos Agostinho da Silva (A Literatura de Agostinho da Silva, essa alegre inquietação, 2016) e António Telmo (António Telmo- Literatura e Iniciação, 2018), pela editora Zéfiro. Publicou, recentemente, três livros pela editora Sem Nome: Cantarolares, um Sabor Azul (poesia, 2017), Ávida Vida (poesia, 2018) e A Vontade de Alão (novela, 2019). No prelo, a sair no próximo Janeiro, uma novela a anunciar em breve, e em avançado trabalho editorial, dois livros de poesia, um deles já projectado para meados de 2022.

Blogue: http://aluzdascasas.blogspot.com/

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