Uma viagem singular e solitária a Santiago de Compostela por Manuel Vitorino

Uma viagem singular e solitária a Santiago de Compostela por Manuel Vitorino

Uma viagem singular e solitária

Manuel Vitorino

Há já muito tempo que sonhava fazer o caminho a pé até Santiago de Compostela. Não perguntem a razão, ou razões, mas a vida também é feita de mistérios, silêncios e, nem tudo é explicado à luz da racionalidade. Seja como for, o Caminho de Santiago com tudo aquilo que está subjacente em termos religiosos, fé, devoção, espiritualidade, conhecimento e cultura fazia parte dos meus planos. Assim, em Outubro de 2019, ou seja, antes da pandemia e após vários conselhos, palestras e algumas leituras, fiz-me ao Caminho. Tracei a rota e algumas linhas vermelhas: o trajecto seria efectuado sem companhia, isto é, caminhando e andando de uma forma solitária, introspectiva, com tempo para observar a Natureza e o património, parando ali e acolá, fotografando, olhando, admirando a paisagem. Sem pressas, sem constrangimentos de nenhuma espécie. Antes, com Liberdade.

Na minha mente e, antes da partida exclui, por opção, as datas festivas propícias às grandes aglomerações de pessoas, grupos de caminheiros com organizações ávidas de negócios. Sim, o Caminho de Santiago também foi contagiado pelo turismo massificado, pelos interesses de ocasião, pela lei da oferta e da procura. O Caminho já tinha começado na minha mente há muito tempo. Entrei às primeiras horas da manhã no comboio Porto/Vigo e, como cheguei cedo a Valença, não resisti a entrar na Fortaleza cheia de turistas ocupados nas tradicionais compras. Só foi tempo de tomar um café e dar corda às botas, isto é, fazer-me ao Caminho, dizer adeus à cidade fronteiriça, entrar em Tuí, olhar em passo apressado o casario antigo, subir a escadaria da  Catedral de Tui, dar um pulo à capela de San Telmo, padroeiro da cidade e rumar a outras paragens.

Caminheiros e geografias

Na curva da estrada, seguem-me outros caminheiros, na sua esmagadora maioria estrangeiros, gente de outros mundos e geografias. Todos desejam “Bom Caminho” e todos têm o mesmo propósito: chegar a Santiago de Compostela, entrar na catedral, assistir à missa do Peregrino e observar a cerimónia do “botafumeiro” na imponente e riquíssima Catedral. As pernas começam a habituar-se ao esforço físico e na passada, vou observando a paisagem soberba da ria de Vigo e depois, qual bálsamo para os sentidos, Porriño. Puxo a fita do tempo e recordo, com nostalgia e emoção, uma das minhas viagens ao célebre Festival de Poesia de Porriño, o encanto dos dias de festa, a troca de cumplicidades com nomes influentes das artes e das letras da Galiza, Xosé Luís Méndez Ferrín e o grande trovador Amâncio Prada, comovente e lírico ao entoar poemas de Rosalia de Castro. Em tempo: antes da pandemia virar o Mundo ao contrário, em Março de 2020, tive o privilégio de assistir a um memorável concerto no Seminário Menor de Braga, do cantor e autor de Adios Rios, Adios Fontes.

Redondela, um encanto

Depois de Porriño, seguiu-se Redondela, o ambiente da ruralidade galega está ao virar da esquina e, sigo por entre caminhos de campos agrícolas, vinhas, atravesso pontes e pequenos rios serpenteados por paisagens de encantar. Como não posso, melhor não devo, perder muito tempo à mesa, deixo a culinária local, os chocos, mais as ostras e os mexilhões para mais tarde e após algumas horas de descanso, sigo em direcção a Pontevedra, cuja cidade medieval e cheia de património tinha conhecido há vários anos, dantes caótica em termos de trânsito e agora, fruto da revolução urbana levada a efeito pelas autoridades locais, devolvida às pessoas, aos habitantes e aos turistas. Como foi bom regressar a Pontevedra, fotografar o Centro Histórico, entrar na Igreja da Virgem Peregrina em forma de vieira, carimbar a caderneta e cirandar pela cidade. Ficava por cá mais algum tempo, mas o caminho ainda é longo. Recolho-me aos aposentos e preparo a jornada seguinte, Caldas dos Reis, cerca de 18,5 Km.
Apesar de ser Outono, a temperatura está pouco amena e só a minha condição de peregrino continua nas alturas. Ainda tento saber como posso tomar um banho retemperador nas Termas de Caldas dos Reis, mas sem reserva tal não foi possível. Optei por descansar alguns minutos e aproveito para enganar o estômago, ingerir líquidos, muitos líquidos para continuar em boa forma física. Consulto o guia de viagem e vejo a próxima etapa, Padrón, mais 18,5 km em cima dos 22 já efectuados. Dois motivos forçam a seguir viagem: visitar a casa de Rosalia de Castro (e saborear os famosos pimentos) e conhecer a Fundação de Camilo José Cela, autor de “Mazurca para dois mortos”, Prémio Nacional de Literatura (1984) e Prémio D. Dinis, atribuído pela Fundação da Casa de Mateus. O primeiro desejo foi cumprido. Cheguei a Padrón ainda a tempo de visitar a Casa/Museu Rosalia de Castro, repositório de recordações, memórias e lugar de reencontro com uma das escritoras e poetisas mais importantes da nossa contemporaneidade. A emoção tomou conta do lugar. Por falta de tempo, já não pude visitar a vetusta Fundação de Camilo José Cela, mas em Padrón, um dos jardins principais faz a sua evocação e memória

A última etapa Padrón/Santiago de Compostela, já foi uma espécie de “Passeio no Parque”, cerca de 25 km, por entre bosques, encostas, aldeias com casario muito antigo, cruzeiros e alminhas. E quando lá de longe, vislumbro a parte alta da torre sineira da Catedral o meu caminho é outro, os dias de azáfama e as noites mal dormidas ganham outro sentido, mais ainda, quando entro na Catedral e cumpro a promessa, ou o desejo secreto de me deixar envolver na mística e espiritualidade de Santiago. Não há um Caminho. Antes, vários caminhos e confluências. Cada um faz o seu como entende e ao seu ritmo. Com fé, descoberta, reencontro consigo próprio num exercício salutar de liberdade e conhecimento

Heróis e cumplicidades

Uma nota final para acrescentar o seguinte: no fim desta jornada fiquei mais rico do que estava antes da partida. Fui só, mas nunca andei só. Pelo caminho, encontrei gente maravilhosa, cúmplice, até fiz amigos, mas o meu herói nesta maratona foi um jovem vindo da Ucrânia, deficiente físico de uma perna. Fez um esforço incrível e com o auxílio de duas muletas ortopédicas conseguiu andar centenas de quilómetros. Por várias vezes, fui-me cruzando com ele e reparei no enorme esforço físico despendido, apenas atenuado com a  ajuda de duas compatriotas.

Tal como eu, chegou à Praça do Obradoiro numa tarde de chuva miudinha, cansado, feliz e com um sorriso enorme. Nem foram precisas grandes palavras para descrever o contentamento estampado no rosto. O santo padroeiro acabou de fazer mais um milagre. Fazer o Caminho a Santiago já deixou há muitos séculos, de ser sinónimo de expiação de penas e castigos. Compostela é um lugar santo, fé, religiosidade, encontro de culturas. O meu foi tudo isto e muito mais: uma mistura de sentimentos, emoções, descobertas.

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

A pandemia mudou o mundo

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Viaxar a Portugal por Anxo González Guerra

Viaxar a Portugal por Anxo González Guerra

Viaxar a Portugal

Nesta “segunda lição” Anxo González escolle o tema da socorrida e gratificante viaxe que con tanta frecuencia realizabamos os galegos en tempos mellores a Portugal (e que agardamos poder seguir realizando sen moita demora) para amosarnos o vocabulario máis común que ten que ver con esta actividade, como os medios de transporte usados para o desprazamento:

comboio (tren), carro (coche), ou outros elementos que están relacionados co mesmo:  alfândega (aduana ou alfándega), portagem (peaxe) etc., pero tamén nos agasalla cuns útiles consellos para aplicar cando viaxemos polas autoestradas portuguesas.

Ben, isto e algunhas cousiñas máis, adobiadas polo bo facer na transmisión de coñecementos que caracteriza o noso prezado colaborador, pero para iso tedes que ver o vídeo, merece  ben a pena.

Grazas, Anxo, coma sempre. Sabemos que nos tes moitas sorpresas preparadas, agardamos impacientes.

Agardamos que vos guste.

Anxo González Guerra

Anxo González Guerra

Profesor de Galego

Son Anxo González Guerra. Crieme entre Trasar de Carballo e a Cervela, lugares da montaña luguesa. No Seminario tiven de profesor ao mestre das etimoloxías Nicandro Ares, no Instituto a Alonso Montero, no Colexio Universitario a Anxo Tarrío e na Facultade de Filoloxía a Carvalho Calero. Terán algo que ver en que sexa un dos integrantes da 1ª promoción de Galego-Portugués?

De xaneiro de 1980 a abril de 2015 fun profesor de Lingua Galega e Literatura no IES Sánchez Cantón onde tiven alumnos e alumnas marabillosos. Desde 2005 Vitoria Ogando e mais eu fomos poñendo materiais na Internet: ogalego.eu. E seguimos de xubilados.

Alá na miña terra da infancia aos xubilados dáselles por traballar unha ribeira ou un morteiro. A min dáseme por cousas de lingua e literatura, alí onde queiran escoitarme. A cabeza non para, non convén estar ocioso.

Noite de San Xoán

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“Revolução dos Cravos” : 47 anos por Manuel Vitorino

“Revolução dos Cravos” : 47 anos por Manuel Vitorino

Democracia vingou, corrupção alastrou

Manuel Vitorino

Foi a manhã mais límpida de Portugal no século XX e, tenho a certeza, de um povo farto de viver na mais completa miséria e obscurantismo, elevadíssimos índices de analfabetismo, falta de cuidados médicos, a mais elevada taxa de mortalidade infantil na Europa. Ou seja, um país impedido de exercer a sua cidadania. Antes de Abril, não existiam eleições livres, partidos políticos e tudo era literalmente proibido, até dar um beijo na rua. Os jornais, livros, filmes tinham de passar pelo crivo da Censura e o regime também não permitia manifestações, reuniões, associações cívicas ou culturais. A polícia política (PIDE/DGS) vigiava todos os passos dos cidadãos, sobretudo aqueles que, ousavam criticar o Estado Novo de Salazar e Caetano, a mais velha Ditadura da Europa, 48 anos “orgulhosamente sós”.

Depois, existia o drama da guerra colonial, uma tragédia em três palcos de África, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, 13 anos de combates, várias gerações de jovens ceifadas numa guerra estúpida e cruel, cerca de 9 mil mortos, mais de 30 mil feridos, muitos deles a sofrer, ainda hoje, de doenças relacionadas com o stress pós-traumático.

A multidão rapidamente se juntou aos militares e ocupou ruas e praças de Lisboa e em todo o país. (Foto de Eduardo Gageiro)

Desde muito cedo que o MFA conseguiu a adesão do Povo. Em poucas horas, um regime de Ditadura de 48 anos caiu às mãos dos militares. A Democracia venceu.

O 25 de Abril de 1974 foi, por isso, uma exigência, um grito de revolta de um país oprimido, milhares de presos políticos espalhados pelas cadeias do Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal (Cabo Verde) por lutarem por um país onde fosse exaltada a Liberdade e a Democracia, com futuro para as gerações mais novas, onde não fosse necessário emigrar para trabalhar como, desgraçadamente, aconteceu nas décadas de 50 e 60 do século XX, com milhares de famílias obrigadas a atravessar a fronteira para França, Alemanha, Suíça.

Com a guerra colonial praticamente perdida nas três frentes de combate – a guerra só podia ser resolvida através da via política e negocial e nunca pela via armada – aconteceu um facto histórico da maior relevância política para a época. No dia 1 de Julho de 1970, o Papa Paulo VI, recebeu, no Vaticano, os três líderes dos movimentos de Libertação das ex-colónias, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. A Ditadura abalou e protestou. A doutrina de Salazar assente na trilogia,  “Deus, Pátria, Autoridade” sofreu mais uma derrota e Portugal continuou cada mais isolado da cena internacional.

Uma foto histórica: os três líderes dos movimentos de Libertação com o Papa Paulo VI. (Foto de Bruna Polimene)

Entretanto, a terra movia-se e um grupo de  jovens capitães começou a conspirar, trocar ideias, contar espingardas, isto é, avaliar as condições políticas e militares susceptíveis de lançar uma ofensiva capaz de derrubar a Ditadura. Foi o que aconteceu de uma forma espontânea e contagiante. O “golpe de Estado” idealizado e concebido por jovens militares rapidamente foi transformado na “Revolução dos Cravos”, Povo e Movimento das Forças Armadas (MFA) sintonizados numa ideia comum: resgatar o país, devolver a cidadania, promover eleições livres e justas, Descolonizar, Democratizar,  Desenvolver, os três grandes objectivos expressos no célebre programa do MFA. Um parêntesis breve para lembrar outro ponto importante neste documento fundacional do novo regime e raras vezes referido: o combate contra a especulação e a corrupção. Os militares liam nos astros o que mais tarde veio a acontecer na Democracia pós 25 de Abril…

Após o 25 de Abril sucederam-se as manifestações, exigências por uma vida melhor, emprego, saúde, habitação (Foto de Henrique Matos)

O emblema do MFA sempre presente: Foi graças ao Movimento das Forças Armadas, composto por jovens capitães que o 25 de Abril triunfou e resgatou um país da miséria e opressão.

A mais bela madrugada
Porém, na mais longa e mais bonita madrugada da nossa história moderna, vários protagonistas foram determinantes para o sucesso das operações. Em primeiro lugar, Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional de serviço, o militar que planeou as operações, mas também, Dinis de Almeida, Vítor Alves, Marques Júnior, Vasco Lourenço (presidente da A25A) Melo Antunes, o grande ideólogo do Movimento dos Capitães, entre muitos outros jovens oficiais, sargentes e praças.

O meu herói, aquele que eu mais admiro e ficará para sempre na memória, foi e será sempre o Capitão Salgueiro Maia, o militar que, no momento decisivo e fulcral, no Terreiro do Paço, teve o sangue frio, a coragem e lucidez de evitar um banho de sangue entre a multidão e depois, no Quartel da GNR, no Largo do Carmo, em Lisboa, criou as condições para a rendição de Marcelo Caetano (o sucessor de Salazar no Poder) e a viagem para o exílio dourado no Brasil.

Salgueiro Maia: o herói do 25 de Abril, o militar que ajudou a fazer a Revolução e recusou honrarias e condecorações. (Foto de Eduardo Gageiro)

O momento mais dramático teve lugar no Largo do Carmo, em Lisboa, em frente ao Quartel da GNR, onde Marcelo Caetano se refugiou. Salgueiro Maia, de megafone em punho, ordenou a sua rendição. (Foto de Eduardo Gageiro)

Existem momentos que ficam na História para sempre. A foto junto aos chaimites, no Terreiro do Paço e depois, de megafone em punho, dando um prazo para Marcelo sair do Quartel (caso contrário seria alvejado e destruído) e com este gesto deu a estocada final no regime e ajudou a resgatar um país inteiro. Depois deste feito histórico, Salgueiro Maia deu a missão cumprida, regressou a Santarém, recusou condecorações, lugares no novo aparelho de Estado. Serviu o país com honra, bravura e glória.

O país, porém, teve memória curta, nem sempre soube estar à altura dos acontecimentos, com o então primeiro-ministro Cavaco Silva, a recusar, em 1988, atribuir ao jovem capitão uma pensão pedida pela viúva pelos “serviços excepcionais e relevantes prestados ao país” devido à sua heróica participação na Revolução do 25 de Abril. Salgueiro Maia, porém, nunca se rendeu à marginalização da hierarquia militar e à forma desonrosa como o poder político o tratou. Concluiu a licenciatura em Ciências Sociais e Políticas, fez uma pós-graduação em Antropologia, envolveu-se em projectos ligados à investigação e Cultura. E só a título póstumo (o jovem capitão símbolo de Abril morreu, com apenas, 47 anos) a viúva recebeu a pensão devida ao marido e a condecoração Torre e Espada atribuída pelo Estado português. Mais tarde, em 1994, Sophia lembrou o legado do “Herói da Liberdade” dedicando-lhe um belíssimo poema que perdurará, para sempre, na nossa memória: “Aquele que na hora da vitória/Respeitou o vencido/Aquele que deu tudo e não pediu nada/Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite/Aquele que amou os outros e por isso/ Não colaborou com a sua ignorância ou vício (…)”.

Estado permissivo e clientelar
E agora, volvidos 47 anos sobre a data histórica da Revolução dos Cravos, como  está o país, como vivem os portugueses, que retrato é possível fazer sobre o seu bem-estar, seja em equipamentos sociais, escolas, hospitais, infraestruturas, acessibilidades, economia, emprego, indústria, ensino, arte e cultura? A resposta não é unívoca e em termos sociológicos, não pode ser vista a preto e branco. Um facto: nem tudo correu como seria expectável e desejável, mas é óbvio para todos que, Portugal deu um salto de gigante no caminho da modernidade, sobretudo, após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) e com a entrega de milhares de milhões foi possível a construção de várias infraestruturas rodoviárias (1) ferroviárias, redes de saneamento básico, Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR´s); o ensino democratizou-se, surgiram muito mais escolas do politécnico e universidades, mais hospitais, centros de saúde, o Estado Social é uma realidade concreta, o SNS deu uma prova inexcedível ao longo dos anos, mais ainda, durante a pandemia, para além de dezenas de equipamentos lúdicos e recreativos, centros culturais, uma rede de teatros e cinemas, digitalização dos serviços públicos, aposta exponencial nas novas tecnologias de informação…

Nem tudo foram rosas. Num longo artigo publicado no jornal  “Público”, o sociólogo António Barreto, chamou-lhe “Estado frágil de um país vulnerável” (2) com resgastes financeiros do FMI (três vezes Portugal pediu ajuda externa com custos elevadíssimos para o futuro do país) e depois, o crescente endividamento contribuiu para a tempestade perfeita, ou seja, o valor da dívida continua a aumentar entre as famílias, empresas e Estado. A soma é astronómica: segundo o recente relatório divulgado pelo Banco de Portugal (3) e tendo como referência o ano de 2020, o valor da dívida atingiu 745. 800 milhões de euros (um record) ou seja, mais 27. 400 milhões de euros, em relação ao ano de 2019.

Neste contexto, valerá a pena chamar a atenção do seguinte: ao longo dos anos, as grandes instituições bancárias foram sempre muito generosas para alguns “empresários do regime” milhares de milhões, na maior parte dos casos sem garantias reais, ou seja, sem certezas de alguma vez o credor pagar seja o que for.  Ao todo e segundo alguns estudos conhecidos e divulgados pela Imprensa, existem mais de 30 mil milhões de créditos mal parado a grupos de empresários que sempre gravitaram na órbita da política e dos banqueiros com cobertura dos governos, na sua maioria, formados pelo PS e pelo PSD, a “central de interesses” da política à portuguesa.

Fosso entre ricos e pobres
Com mudanças estruturais sempre muito fracas, um país cheio de auto-estradas, rotundas, pavilhões gimnodesportivos, piscinas e outros equipamentos sem racionalidade, não admira, pois que, em tempo de pandemia, todas as incertezas venham à superfície: desemprego, pobreza, quebra de rendimentos, fome e miséria.

Num estudo inédito intitulado “Como são e como vivem os pobres em Portugal” (4) publicado recentemente pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, afirmava-se o seguinte: “Quase 1/5 dos portugueses está em risco de pobreza no país”. Contas feitas, são quase 1,700 milhões de pessoas que, por razões geralmente associadas ao desemprego/doença/divórcio, ficam à mercê da vulnerabilidade e mais perto de não terem rendimentos para alimentação, um tecto para viver.

O estudo agora divulgado aponta outro facto alarmante: um terço dos pobres são trabalhadores, mas na sua esmagadora maioria são precários. “Ter um emprego seguro não é suficiente para sair de uma situação de pobreza”, sublinha o documento.

Assim sendo e uma vez que a pandemia ainda está muito longe de ficar debelada (até agora, só foram vacinados com a primeira dose, cerca de 2 milhões de portugueses) não admira, pois, que estes números aumentem, uma vez que, todos os dias, são conhecidas novas falências de lojas comerciais, encerramento de restaurantes, bares, cafés, pequenas empresas privadas de nome individual.

Por isso, não será necessário ser “profecta da desgraça” para adivinhar uma catástrofe. O país vai regredir muitos anos e, tão cedo, não terá os níveis de aparente felicidade económica (em parte devida aos milhões provenientes do Turismo) como os atingidos em 2019.

Negócios pouco claros
E tal como os militares do 25 de Abril de 1974, alertavam no Programa do MFA, a  corrupção continuou a fazer o seu caminho, cada vez mais sistémica, enraizada na sociedade portuguesa, com negócios de duvidosa legalidade, sempre aos milhões, uma vezes entre empreiteiros da construção civil e as autarquias, outras, através de ajustes directos com instituições públicas e empresas privadas, de forma a evitar o visto do Tribunal de Contas e fugir ao controlo e escrutínio público.

“Quase meio século depois do 25 de Abril o Regime não combateu a corrupção, como permitiu que se instalasse no Regime, confundindo com o Regime, políticos nas empresas, empresários no Parlamento. A promiscuidade  estabeleceu-se. Em síntese, os casos de corrupção são imensos e temos vindo a perder lugares no Ranking da Transparência. Em 2000, Portugal ocupava o 23º lugar; em 2020, estamos no 33º  lugar. Descemos 10 lugares. É vergonhoso”, denuncia Paulo de Morais, professor universitário, investigador dos fenómenos da corrupção em Portugal.

Para o autor de “O Pequeno Livro Negro da Corrupção”, acabado de editar pela Editora Influência, este “fenómeno intrusivo” está a “minar a Democracia portuguesa” e a “matar a esperança” no futuro do país. “A vida política está capturada pelos actores económicos que feudalizam o país através de vários sectores da economia, aeroportos, águas, infraestruturas rodoviárias, etc. Ao fim de 47 anos de Democracia, os serviços públicos estão nas mãos dos grandes interesses económicos. Antes do 25 de Abril, existiam 18 famílias a mandar no país; hoje a concentração é maior, o capitalismo monopolista é muito superior”, afirmou o fundador da Associação Cívica e Transparência e Integridade, cuja organização portuguesa faz parte da Transparency International.

Resumindo e concluindo: continuamos pobres, embora fazendo figura de ricos, por vezes esbanjando milhões em projectos de duvidosa viabilidade económica/ financeira e que, depois, não servem rigorosamente para nada, a não ser para as empresas e os grandes escritórios de advogados. Um exemplo: há mais de 30 anos, prometeu-se a electrificação da linha do Norte, entre Lisboa e o Porto, mas 30 anos depois, está quase tudo por fazer. Gastaram-se milhões em estudos e o comboio continua a circular, praticamente, como nos anos 80 do séc. XX.

Europa promete milhões
No meio desta pandemia (até hoje, dia 18 de Abril, as autoridades de saúde confirmaram 16.945 mortos por Sars-Cov-2) resta-nos o apoio fundamental da União Europeia, incentivar Portugal a não ceder à chantagem das grandes indústrias farmacêuticas e esperar pelas vacinas milagrosas.

E pelos prometidos milhões que, gastos em obras estruturantes e fundamentais, podem ajudar à modernização do país, promover a tão desejada coesão territorial entre o litoral povoado e o interior desertificado, diminuído injustiças sociais, políticas, económicas, culturais. Entre a resignação,  a desilusão e a esperança em dias melhores, o 25 de Abril voltará a ser um dia de festa e de celebração.

Há 47 anos, um cartaz belíssimo da pintora Maria Helena Vieira da Silva anunciou: “A Poesia está na Rua”. E Sophia de Melo Breyner Andresen escreveu um poema único: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”.

Notas

1-Neste domínio, ou seja, nas autoestradas, somos um país do Primeiro Mundo, rivalizando com outros países mais ricos como, por exemplo, a Noruega. Resta acrescentar que, muitas das autoestradas, foram construídas ao abrigo das PPP-Parceria Público-Privadas, ou seja, um esquema ruinoso com elevadíssimos encargos financeiros para o Estado e lucros astronómicos para as empresas privadas encarregadas da concessão. Fazem parte das famosas “rendas”, um eufemismo com efeitos nefastos na economia portuguesa.

2- in Público, 27 de Março, 2021. No mesmo artigo, António Barreto (ex-ministro da Agricultura num governo PS) acrescentava o seguinte:
“O Estado não é forte de mais. É fraco e pesado. E frágil. Só é forte nos obstáculos que cria. E para favorecer os seus(…)”

3- Público, 18 de Fevereiro 2021.

4- Os resultados abrangeram cerca de 100 entrevistas efectuadas no país. O projecto foi coordenado pelo investigador Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores. O estudo resultou da observação dos últimos dados disponíveis do inquérito às condições de Vida e Rendimento (ICOR) relativos a 2018.

Nota: o autor não segue as normas do AO

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

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Um desconfinamento desconfiado por Graça Foles

Um desconfinamento desconfiado por Graça Foles

Desconfinamento desconfiado

Este artigo foi publicado o 7 de abril 2021 no portal de información portugués ELVASNEWS, centrado na rexión do Alto Alentejo.

Em todo o mundo, cada um, à sua maneira, se sente deprimido e triste com o isolamento que é obrigado a cumprir, por motivos óbvios e indiscutíveis.

A ansiedade tomou conta das sociedades, a todos os níveis. São pobres e ricos que sentem na pele, as consequências desastrosas de uma epidemia que, por mais que se tente mitigar, teima  continuar a destruir a humanidade.

De onde veio este vírus?

Pergunta pertinente, mas que se mantém, sem resposta.

Como pode ser debelado?

Tantas incertezas, tantas vontades unidas, talvez até, tantos interesses, políticos e comerciais, tantos cientistas envolvidos, mas ninguém nos pode garantir nada.

Damos um passo em frente, para em breve, serem dados dois para trás.

O tempo continua correndo, naturalmente, o sol brilha e ilumina a terra, a natureza, aqui ou além, enfurece-se e destrói, mata, aflige o homem.

Apenas uma verdade domina o nosso pensamento, a triste realidade de que, em nada e ninguém, poderemos confiar.

A desconfiança anda de mãos dadas com o desconfinamento que nos oferecem, cautelosamente, porque, prever o futuro, não é dom humano.

A obrigatoriedade de ficar em casa, ficar em casa, isolar-se, isolar-se, soa nas nossas cabeças como se estivéssemos jogando na “roleta russa”.

 Ao mínimo descuido, a morte bate-nos à porta, dominadora, poderosa, impiedosa, sem estarmos preparados para a receber.

Ficamos dominados pelo medo de nos aproximarmos de alguém, e esse alguém, igualmente, tem medo de nós.

Até quando, viveremos nesta ansiedade e incerteza?

Quem nos irá, alguma vez, compensar do tempo perdido?

Quem assumirá, porventura, que tem culpas em toda esta dolorosa situação, que se vive, em todos os cantos da Terra?

Normalmente, não me dominam pensamentos negativos, mas, com toda a sinceridade, nesta fase que vivemos, mesmo não querendo entrar em desânimo, nem induzindo ninguém a seguir esse caminho, penso que tenho obrigação moral de não ficar metida nesta bolha que criei à minha volta, e solidarizar-me com quem é mais frágil e vulnerável.

Tenho conhecimento de pessoas que foram infetadas pelo Covid, como eu, mas não estão bem, como eu estou. Sentem reações no corpo, muito preocupantes, sequelas desconhecidas que ninguém sabe ainda, como tratá-las.

Outros, infelizmente, sabemos que, mesmo tendo sido já vacinados, não ficaram imunes ao vírus, e ainda outros, que, com a vacina, encontraram a morte.

Não bastando a doença, a par de tudo isto, temos uma gigantesca multidão de desempregados, sem a mínima esperança de voltarem ao trabalho.

Como poderá sobreviver, a humanidade, no meio de um caos que se instalou e persiste ficar, sem um fim à vista?

Como reagem os jovens, que voltaram às escolas?

Como convivem com os seus colegas?

Qual a melhor atitude dos professores, perante os seus alunos?

Aguardemos uns dias, com esperança de que não haja um retrocesso e a saúde não volte a ser o maior motivo de preocupação, novamente.

Teremos, efetivamente, que fazer um “desconfinamento”, com alguma precaução e “desconfiança”.

Lembremo-nos do ditado popular: “homem prevenido, vale por dois”!

Graça Foles Amiguinho

Graça Foles Amiguinho

Colaboradora

“Son Maria de Graça Foles Amiguinho Barros. Vivo en Vila nova de Gaia, pero nascín no Alentejo, nunha aldeia pequena chamada A Flor do Alto Alentejo.

Estudei en Elva. Fiz maxisterio en Portoalegre. Minha vida foi adicada ao ensino durante 32 anos, aos meus alumnos ensineilles a amar as letras, o país, as artes e a cultura. 

Meu começo coa poesia aconteceu de xeito dramático cando partin os dous braços, en 2004 comecei a escribir poesia compulsivamente, en 2005 xa tiña o primero libro editado  O meu sentir…”

Foram días, foram anos

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Lección de Portugués básico por Anxo González Guerra

Lección de Portugués básico por Anxo González Guerra

Comer en Portugal

Nesta primeira entrega, o noso novo colaborador, admirado compañeiro de profesión durante moitos anos e especialista en galego-portugués, Anxo González Guerra, ofrécenos unhas indicacións  de moita utilidade para COMER EN PORTUGAL.

Así descubrimos como O ALMORZO galego é o PEQUENO ALMOÇO en portugués, ou o noso XANTAR (principal comida do día) é a palabra que eles, coa súa propia fonética e ortografía, por suposto, (JANTAR) utilizan para denominar o que nós chamamos CEA.  E moitas cousas máis coas que Anxo nos irá ilustrando en sucesivos vídeos.

Agardamos que vos guste.

Anxo González Guerra

Anxo González Guerra

Profesor de Galego

Son Anxo González Guerra. Crieme entre Trasar de Carballo e a Cervela, lugares da montaña luguesa. No Seminario tiven de profesor ao mestre das etimoloxías Nicandro Ares, no Instituto a Alonso Montero, no Colexio Universitario a Anxo Tarrío e na Facultade de Filoloxía a Carvalho Calero. Terán algo que ver en que sexa un dos integrantes da 1ª promoción de Galego-Portugués?

De xaneiro de 1980 a abril de 2015 fun profesor de Lingua Galega e Literatura no IES Sánchez Cantón onde tiven alumnos e alumnas marabillosos. Desde 2005 Vitoria Ogando e mais eu fomos poñendo materiais na Internet: ogalego.eu. E seguimos de xubilados.

Alá na miña terra da infancia aos xubilados dáselles por traballar unha ribeira ou un morteiro. A min dáseme por cousas de lingua e literatura, alí onde queiran escoitarme. A cabeza non para, non convén estar ocioso.

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“A pandemia mudou o mundo”  por Manuel Vitorino

“A pandemia mudou o mundo” por Manuel Vitorino

A pandemia mudou o mundo

Manuel Vitorino

Foi há um ano, parece que foi ontem, mas o Mundo nunca mais ficará igual. Os pobres ficarão mais pobres, os ricos cada mais ricos, os milionários não saberão o que fazer a tanta riqueza acumulada. “O mal de uns é o bem de outros”, dizia a minha mãe.  Palavras sábias. Resta saber como ficará a sociedade no pós-pandemia, mais solidária, mais fraternal, com espírito de entreajuda, ou pelo contrário, com mais desigualdades sociais e económicas? E como é que os governos vão actuar perante a miséria, a falta de emprego de milhões de pessoas, sem dinheiro para pagar as suas casas, sem hipóteses de dar um futuro melhor aos seus filhos? Resta esperar e saber como vai actuar a União Europeia e saber se os níveis de corrupção não vão aumentar assustadoramente na UE e, em particular, em Espanha e Portugal, dois países tão próximos e de quem tanto portugueses como castelhanos pouco sabem da sua história, cultura, tradições.

As primeiras imagens de choque sobre o aparecimento do Monstro na Europa chegaram-me de Itália, através da Sky News, nas ruas e hospitais da belíssima cidade de Bérgamo. Vão ficar na memória. Foi há um ano,  na abertura dos telejornais da noite e fiquei completamente paralisado. O apetite voou pela janela e os meus olhos ficaram em pranto. Como foi possível ter acontecido esta pandemia quando tudo, aparentemente, estava a correr bem?  Em Portugal já tinham tocado as campainhas de alarme e exigia-se ao SNS milagres que, uns meses antes, uns quantos atacavam (por ignorância, ou má fé) e a maioria manifestava apoio por ter um SNS dos melhores do Mundo.
Durante os primeiros dias, dei por mim sentado, religiosamente, à hora certa, para assistir às conferências de Imprensa da DGS. Sucediam-se as perguntas atrás de perguntas, as respostas dadas por rostos cansados e, muitas vezes, difusas perante a complexidade dos problemas. Tudo era assustador, medonho, com mortes a subirem diariamente em Portugal e em flecha na vizinha Espanha, Itália, França, EUA, Brasil, Índia…As maiores dores de cabeça vinham das pessoas infectadas em lares, muitos deles sem condições de higiene e sanitárias, falta de pessoal especializado, ausência de cuidados de saúde. A novidade só foi surpresa para quem anda distraído, ou finge não saber. (Para memória futura: a maior parte dos lares em Portugal são armazéns de idosos e muitos deles funcionam de forma clandestina e à margem das leis. Toda a gente sabe, mas os sucessivos governos e a Segurança Social têm sido ineficazes neste combate. Depois, os interesses e o encobrimento de quem tem responsabilidades nesta matéria fazem o resto).

Imagens terríveis
Ao fim de alguns dias confinado e atordoado por milhares de notícias, entrevistas, “reportagens em exclusivo”, debates e mesas-redondas com diversos especialistas em saúde pública, virologistas e cientistas, tomei uma decisão radical: apenas fazer “zapping” às notícias e desligar a televisão dos infindáveis telejornais com falsos directos que, em alguns casos, atingiam quase duas horas de emissão. Por uma questão de sanidade mental, também deixei de ver as palhaçadas do Trump e do psicopata Balsonaro. Em troca, ganhei mais tempo para a leitura de jornais (não dispenso o Público e o Expresso desde que existem) e fui à estante buscar diversos livros esquecidos. A agenda está sempre cheia de acontecimentos, eventos, concertos, filmes, sessões de poesia online. Os dias até parecem outros e agora, tenho a sensação de serem mais longos, muito mais ricos do ponto de vista espiritual e cultural. Só numa semana, entre o dia 25 de Abril e o dia 1 de Maio pude observar uma mão cheia de bons filmes, como “A Condessa de Hong-Kong” (1967) de Chaplin; “Forte Apache” (1949) de John Ford;  “Adeus Lenine” (2003) de W. Beker; “A Condessa Descalça” (1954), de Joseph L. Mankiewicz; “ Os Filhos da Noite” (1949) de Nick Ray; mais um excelente documentário sobre Hitchcock (RTP2) e para terminar, revi “Janela Indiscreta” (1955) do mesmo realizador. Como existem muitas iniciativas transmitidas pela Internet, tive tempo de sobra para escutar a importante entrevista do poeta e cardeal do Vaticano, José Tolentino Mendonça (através do site da Fundação Francisco Manuel da Mota); viajar até aos arredores de Paris, ao Palácio de Versailles e na companhia do Mezzo, assistir ao fabuloso bailado “Phaeton”, uma tragédia musical lírica interpretada pela Ópera Royal de Versailles, com música do compositor Jean-Baptiste Lully, um dos favoritos da corte de Luís XIV. A agenda ainda permitiu seguir algumas actividades programadas por Serralves, CdM, TNSJ e Galerias Mira.

Filmes, livros e músicas

E assim tenho vivido neste convento especial, clausura quase total, cumprindo escrupulosamente as regras da Direcção-Geral da Saúde e apenas colocando pé na rua para ir ao supermercado ou à farmácia. E com o foco virado para a Arte. 

Para hoje programei dois filmes imperdíveis: Táxi (2015) do iraniano Jafar Panahi e Roma (1972) de Fellini e lá pela noitinha,  tenciono retomar a leitura de “O Resto é Ruído”, de Alex Ross, uma obra monumental cujo resultado final “não é tanto uma história da música do séc. XX, mas sim, uma história do séc. XX através da sua música”. Se o leitor teve a paciência de seguir estas linhas, já percebeu que, por este andar, com ou sem confinamento social, vou ficar muito mais tempo em casa. Por uma razão simples: estou a sentir-me muito bem. E como a vacina milagrosa vai demorar muito tempo até toda a gente ficar imune ao vírus, o meu refúgio será sempre este convento onde tenho sempre muitas opções à escolha, Net 24 horas, televisão por cabo, estantes com livros, revistas, milhares de Cd´s, centenas de filmes. A saúde não tem preço. E tudo o resto é ruído.

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

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