Foi relativamente tardio o meu encontro com a Galiza, por circunstâncias da vida que me condicionaram na exploração do espaço em que surgi, mas nem por isso foi menos intenso.

Nascida na raia alentejana, perto de Badajoz, ouvindo desde o berço as minhas avós misturarem o castelhano com o português, cedo interiorizei a irmandade dos dois países, embora Espanha tivesse começado por ser, para mim, Estremadura e Andaluzia.

Mas mais tarde, já adulta, participei num encontro de poetas em Vigo, e já aí se descortinou uma outra Espanha, impressionantemente próxima do meu berço, das minhas canções de embalar e das histórias das minhas avós. Ouvir falar galego era como se ainda não tivesse atravessado a fronteira, sabendo que o tinha feito, como se ainda estivesse no Minho, mas mais que isso, era como se não se tivessem passado assim tantos séculos desde a formação da nacionalidade e ali nos reuníssemos todos outra vez no melhor daquilo que nesse tempo fomos. Ainda hoje tenho dificuldade em, ao primeiro contacto, distinguir um minhoto de um galego, no falar. Mas a experiência mais profunda foi a sensação de transporte, mais do que recuo no espaço, a viagem no tempo. Muito, muito próxima da pureza da língua, da música da fala, da origem do mistério.

Voltemos aos poetas. Já conhecia Rosalía, essa renascedora ou parteira da poesia galega após séculos de ocultamento, mas quando, por duas vezes, percorri o caminho de Santiago a pé, a partir do Porto, a poesia galega que até aí era letra, ganhou voz, ar, corpo e substância. Cor, sabor, cheiro, movimento. Outras vezes fiz de automóvel a viagem, o que permitiu “visitar Rosalía”, que se encontra, estrategicamente, no caminho. É um dos santuários do percurso, como as capelas, as árvores, os rios, as pedras, as fontes, as pontes…

Rosalía de Castro

Rosalía de Castro  por Luis Sellier

Pedra coraçao

Não é o mesmo, chegar de carro a uma aldeia, ou depois de ter percorrido entre 15 e 30 quilómetros a pé, falando com as pessoas, ouvindo histórias, sentindo a suavidade ou a dureza do chão, sorrindo muito, cantando e chorando às vezes, sentindo-nos em casa, pelo som, que é sempre o nosso primeiro contacto com o mundo exterior, ainda na barriga da mãe.

Por essa razão, se mais não houvesse, que as há, como veremos, é para mim um prazer, uma alegria e um privilégio que agradeço, poder visitar esta bela página escrevendo na minha língua, sabendo que nos entenderemos perfeitamente, emissores e receptores, e sabendo que nos entendemos perfeitamente através da música com que falamos e lemos, e através da geometria com que escrevemos. Voltarei a este assunto. E a outros. Nomeadamente, uma gramática espanhola que segundo um querido filósofo português, é a melhor gramática da língua portuguesa. Um paradoxo que vale a pena explorar. Entretanto, amigos e amigas da Galiza, faço um brinde convosco, erguendo o meu copo de queimada em ritual respeitoso, esconjurando o mal como coisa de passado, e celebrando as artes, a literatura e a poesia em particular, como a língua do futuro. Em galaico-português,«Bailemos nós já todas três ai amigas». Bailemos mais, bailemos todos, nestas noites frias, perante um presépio onde um Menino antigo pede que lhe cantemos uma canção de embalar, o que faremos numa língua entre o português e o galego que uma vez aprendi e muitas vezes cantei e canto: «Anda durmete nino, que viene el coco, a comere los ninos que durmem poco […] anda durmete nino, e durme sin medo, aunque silben los aires e grunhan los perros». É um prazer iniciar estas crónicas com votos de Feliz Natal! Quanta esperança transportam sempre consigo os nascimentos!

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Colaboradora Portuguesa

Risoleta C. Pinto Pedro, nascida em Elvas, é autora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, ensaio, crónica periodística e radiofónica (Antena 2), conto infantil e BD, assim como ópera, canção, cantata e musical, tendo escrito libretos a convite dos compositores Jorge Salgueiro, Paulo Brandão e Helena Romão, com incursões também na escrita para dança (Companhia de Dança Amalgama). Tem mais de vinte obras publicadas, para além de colaboração em revistas, catálogos, manuais e colectâneas. Na ficção recebeu o Prémio Revelação APE/IPBL, O Aniversário, 1994; Ferreira de Castro (A Criança Suspensa 1995), tendo sido duas vezes distinguida na poesia pela Sociedade da Língua Portuguesa. Foi professora de Literatura em várias escolas, nomeadamente, e durante mais tempo, na Secundária Artística António Arroio. Tem escrito e feito conferências sobre as obras de: Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Sebastião da Gama, Bocage e Jaime Salazar Sampaio, entre outros. Mais recentemente, tem estudado, escrito e publicado ensaio sobre a obra dos filósofos Agostinho da Silva (A Literatura de Agostinho da Silva, essa alegre inquietação, 2016) e António Telmo (António Telmo- Literatura e Iniciação, 2018), pela editora Zéfiro. Publicou, recentemente, três livros pela editora Sem Nome: Cantarolares, um Sabor Azul (poesia, 2017), Ávida Vida (poesia, 2018) e A Vontade de Alão (novela, 2019). No prelo, a sair no próximo Janeiro, uma novela a anunciar em breve, e em avançado trabalho editorial, dois livros de poesia, um deles já projectado para meados de 2022.

Blogue: http://aluzdascasas.blogspot.com/

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