Vesperal de Teresa Melo – devellabella

Vesperal de Teresa Melo – devellabella

VESPERAL

Suaves raios de sol

Refletem na tranquila paisagem;

A visão encantada pelo canto do rouxinol!

Envolvem a breve aragem.

A luz poente paira serenamente,

Sobre o teto da ramagem,

Embala cada folha lentamente

E, aguarda para seguir viagem.

É um sonhar acordado;

Vontade de parar no tempo,

Viver a ilusão em sítio vedado!

Mas, a vida é um eterno entardecer,

É como as águas vertidas no rio,

Onde tudo finda e aguarda renascer!

Poema e pintura de Teresa Melo

Vesperal
Teresa Melo

Teresa Melo

Poeta e pintora

María Teresa Van Caennemberg de Oliveira Melo

Nascida em 5/12/1958 em São João da Madeira, onde viveu até 1973.

Nesse ano, trocuo a vida pacata da vila pelo rebuliço da garbosa cidade de Porto, onde concluiu os estudos na área de Turismo, profissão que abraçou apaixonadamente até 2008.

Seus pais sempre lhe incutiram a importãncia da leitura, narração de histórias e viagens, como pilar do ensino-aprendizagem que a levaram a escrever textos e poemas, desde adolescência.

Sua paixão pela Arte tenta conciliar a pintura e a escrita.

Em 2020 participou na Colectãnea Raia Luso Espanhola a convite da poetisa e amiga Graça Foles Amiguinho.

Desde então, tem participado em algumas iniciativas com poemas e pinturas na NPG e culturalia.

“Acredito que a Arte é a alma da Sociedade”

Colaboradores

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Quarta lição de português por Anxo González Guerra

Quarta lição de português por Anxo González Guerra

Nesta ocasión Anxo González Guerra, o noso mestre famoso en Luar, ensínanos máis vocabulario cotián:

bom dia=bos días,

boa tarde=boas tardes,

boa noite=boas noites,

olá=ola,

sotaque=acento,

obrigado=grazas, muito obrigado=moitas grazas, obrigadíssimo=moitísimas grazas,

sim=si, pois=dacordo,

com licença=con permiso,

espantoso=bó, esquisito=raro,

feriado=festivo, greve=folga, folga=descanso,

feira=feira,mercado,

idoso=maior, terceira idade,

até breve=ata pronto, até já=ata agora,

adeus=adeus,

miúdo=cativo,

portanto=entón……

Agardamos que vos guste.

Anxo González Guerra

Anxo González Guerra

Profesor de Galego

Son Anxo González Guerra. Crieme entre Trasar de Carballo e a Cervela, lugares da montaña luguesa. No Seminario tiven de profesor ao mestre das etimoloxías Nicandro Ares, no Instituto a Alonso Montero, no Colexio Universitario a Anxo Tarrío e na Facultade de Filoloxía a Carvalho Calero. Terán algo que ver en que sexa un dos integrantes da 1ª promoción de Galego-Portugués?

De xaneiro de 1980 a abril de 2015 fun profesor de Lingua Galega e Literatura no IES Sánchez Cantón onde tiven alumnos e alumnas marabillosos. Desde 2005 Vitoria Ogando e mais eu fomos poñendo materiais na Internet: ogalego.eu. E seguimos de xubilados.

Alá na miña terra da infancia aos xubilados dáselles por traballar unha ribeira ou un morteiro. A min dáseme por cousas de lingua e literatura, alí onde queiran escoitarme. A cabeza non para, non convén estar ocioso.

Viaxar a Portugal

Annabel lee

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Abram-se, todas as fronteiras por Graça Foles

Abram-se, todas as fronteiras por Graça Foles

No passado dia 4 deste mês, reuni na cidade do Porto, muitos autores e seus familiares, com alguma tristeza, por não o poder fazer na minha cidade de Elvas.

A Invícta Cidade do Porto é a minha segunda cidade, a cidade onde nasceram os meus dois filhos, onde vivo há 52 anos. Talvez tivesse chegado o momento de aqui fazer, algo diferente!

Este ano reuniram-se aqui, as melhores condições, para que este encontro de autores pudesse acontecer, numa das Casas mais típicas da cidade, o PÁTEO DA MARIQUINHAS, onde nos sentimos como se estivéssemos em casa, graças à colaboração do grande músico, professor e fadista, Lino Lobão, com quem tenho dado asas a um dos meus grandes sonhos, o de um dia gravar as minhas músicas, os meus poemas e de outros autores.

Lamento que muitos dos autores residentes no Alentejo, na Estremadura e na Galiza, não estivessem presentes. São momentos únicos na nossa vida Cultural que para sempre ficam guardados na memória e na nossa alma poética e sentimental. Tenho imenso gosto de oferecer, aos meus amáveis leitores, alguns desses momentos, abrindo as portas, uma vez mais, a quem quiser entrar nesta “carruagem de sonhos”, pois será acolhido de braços abertos. A CULTURA NÃO TEM FRONTEIRAS!

ABRAM-SE, DE PAR EM PAR, TODAS AS FRONTEIRAS

O segundo verso de um poema que escrevi, é precisamente, o que faz o título desta minha Crónica.

Há mais de cem anos, que Portugal e Espanha não se viam privados de atravessar a linha imaginária, que divide os dois países.

As trocas comerciais, o convívio amigável com “nuestros hermanos”, tem sido uma constante e com agradáveis resultados, tanto a nível económico, como sentimental e cultural.

Quando, em janeiro de 2019, fui convidada a “dar uma aula” no CLUBE DE LEITURA DE PORTUGUÊS”, em BADAJOZ, dirigido pelo Dr. Carlos Beirão, digníssimo Professor na Escola Industrial e Comercial de Elvas, após nos termos conhecido, no LANÇAMENTO DE COLECTÂNEA “ELVAS À VISTA”, a primeira que organizei com 41 autores do nosso Concelho, realizado no Cine Teatro de Elvas, cedido pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Elvas, senti que muito mais poderia fazer, que nos unisse aos nossos vizinhos que tanta nos estimam, até ao ponto de desejarem aprender a riquíssima LÍNGUA DE CAMÕES.

O caminho estava traçado e, de imediato, comecei a fazer convites a amigos, nas redes sociais, envolvendo, na nova obra que imaginei, escritores, pintores, poetas e fotógrafos das 3 cidades que formam a EUROCIDADE-BADAJOZ, ELVAS, CAMPO MAIOR, chegando ao bonito grupo de 67 autores. Assim, em setembro de 2019, uma nova obra, empolgante e de um conteúdo bastante rico, era LANÇADA EM SANTA EULÁLIA, no Pavilhão Multiusos, cedido pela Junta de Freguesia de Santa Eulália.

Foi tão grande o entusiasmo dos participantes, que senti que não poderia deixar de continuar a abrir os meus braços, a quem quisesse entregar-se a um novo projeto cultural, mais alargado.

Assim, nasceu a COLECTÂNEA RAIA LUSO ESPANHOLA, na qual reuni 63 autores, oriundos da Extremadura, Galiza, Astúrias e Portugal, claro.

Esta obra foi LANÇADA EM SANTA EULÁLIA, no Pavilhão Multiusos de Santa Eulália, em setembro de 2020, durante a pandemia.

Nem os problemas de ordem sanitária nos impediram que esta grande COLECTÂNEA se tornasse uma realidade, uma forma de dizermos que queremos viver, queremos tornar estes tempos de dor e sofrimento, menos pesados.

Como o povo diz, e com razão: “PARAR É MORRER”, vamos continuando a nossa caminhada, sem parar.

Neste momento, está prestes a ser editada uma nova COLECTÂNEA- CULTURA SEM FRONTEIRAS- uma nova obra literária e artística, resultado da reunião de 47 autores, sendo 27 portugueses e 20 da vizinha Espanha, oriundos da Galiza, Astúrias e Extremadura.

Uma verdadeira aventura, sempre com o intuito de unir as nossas culturas, dinamizar e tornar mais sólida a partilha de saberes, criando laços da mais pura amizade.

Todo este trabalho, tem sido, na minha vida, a continuação do que sempre gostei de fazer, embora, hoje, de forma diferente, convivendo, tornando os dias menos sombrios, ocupando-me com coisas que me dão uma profunda satisfação.

Já há uns anos, que ouso musicar os meus poemas e gosto de os cantar.

Nestas 4 COLECTÂNEAS, fui mais além. Musiquei poemas de outros autores.

Em CULTURA SEM FRONTEIRAS teremos um CD com 9 poemas de 9 autores, que musiquei e estou a gravar, em estúdio.

É este o meu poema de LANÇAMENTO DA COLECTÂNEA e apresentação de autores:

Por um mundo melhor

Derrubem-se, todas as barreiras,

Abram-se de par em par, todas as fronteiras.

A paz, a cultura, a alegria de viver,

Querem fazer morada, onde o homem estiver!

Nós somos diferentes, mas todos iguais,

Porque acalentamos os mesmos ideais!

Somos diferentes, pero todos iguales,

Porque acalentamos los mismos ideales.

És tiempo de avanzar y construir

Un mundo mejor, un florir!

No percamos tiempo, mios amores,

Empunhemos banderas de flores, multicolores!

Ref

Venham os cantadores de saias e do fado,

Das miuñeiras e do sapateado.

Levantem-se os prosadores e poetas,

Todos os sonhadores e façamos festa!

Ref

La fiesta de la literatura y de las artes.

Una fiesta inmortal que nos una

En un poyeto sin igual

De esperanza, en un mundo mas fraternal.

Ref

                                                                          Graça Foles Amiguinho

           

Graça Foles Amiguinho

Graça Foles Amiguinho

Colaboradora Portuguesa

“Son Maria de Graça Foles Amiguinho Barros. Vivo en Vila nova de Gaia, pero nascín no Alentejo, nunha aldeia pequena chamada A Flor do Alto Alentejo.

Estudei en Elva. Fiz maxisterio en Portoalegre. Minha vida foi adicada ao ensino durante 32 anos, aos meus alumnos ensineilles a amar as letras, o país, as artes e a cultura. 

Meu começo coa poesia aconteceu de xeito dramático cando partin os dous braços, en 2004 comecei a escribir poesia compulsivamente, en 2005 xa tiña o primero libro editado  O meu sentir…”

Foram días, foram anos

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Luis Vaz de Camões por Graça Foles – devellabella

Luis Vaz de Camões por Graça Foles – devellabella

No dia 10 de junho celebra-se em Portugal o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Feriado nacional, esta data presta homenagem ao grande poeta Luís Vaz de Camões, autor d´Os Lusíadas, a maior obra épica de Portugal, que faleceu no dia 10 de junho de 1580.

Falar de Luís Vaz de Camões, o maior poeta português de todos os tempos, não é tarefa fácil, pois, para além do manancial literário que nos legou, pouco recebendo em troca, teve uma vida atribulada no seu percurso, como viajante e personagem irreverente, em muitos momentos da sua permanência terrestre. Contudo, é aliciante recordar quem foi, de onde veio, como viveu e sonhou, este espírito criador e invulgar, homem que adquiriu saber e o transformou, através da Poesia, no mais belo testemunho da História de Portugal e com ele deu um incremento extraordinário, à Literatura, na sua mais rica expressão.

camoes

Em Camões, vamos encontrar, uma vez mais, grandes laços de afinidade com os meus amigos, para quem escrevo estas palavras. A Casa ancestral dos “Camões” tinha as suas origens na GALIZA, não longe do CABO FINISTERRA.
Pelo lado paterno, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires de Camões, trovador Galego, guerreiro e fidalgo, que se terá mudado para Portugal em 1370 e recebeu do rei, grandes benefícios em cargos, honras e terras.

As suas poesias, de índole nacionalista, contribuíram para afugentar as influências italiana e bretã e criar um estilo trovadoresco nacional. O seu filho, Antão Vaz de Camões, serviu no Mar Vermelho e casou com D. Guiomar da Gama, parente de Vasco da Gama. Desta união, nasceram Simão Vaz de Camões, que serviu na Marinha Real e fez transações comerciais na Guiné e na Índia, e outro irmão, Bento, que seguiu a carreira das letras e do sacerdócio, entrando no Mosteiro de Santa Cruz dos Agostinhos, uma ilustre escola para muitos fidalgos portugueses.
Simão casou com Dona Ana de Sá e Macedo, também de origem fidalga, natural de Santarém. O seu filho único, Luís Vaz de Camões, terá nascido em Lisboa, em 1524. Com 3 anos de idade, a família muda-se para Coimbra, para fugirem à peste, acompanhando a família real.

Muito provavelmente, Luís Vaz de Camões, terá sido educado pelo seu tio Bento, até aos 13 anos e depois, encaminhado para Coimbra. Conta-se, ter sido um estudante indisciplinado, mas ávido de conhecimento,
com imenso interesse pela história, cosmografia e literaturas clássica e moderna. A verdade é que, nos registos da UNIVERSIDADE DE COIMBRA, o seu nome não aparece. Mas, pelo seu estilo literário, com imensas citações eruditas, depreende-se, facilmente, que recebeu uma sólida educação.

Muito provavelmente, terá sido o tio Bento, o seu grande Mestre, pois, sendo uma pessoa muito culta, foi chanceler da Universidade e prior do Mosteiro de Santa Cruz, ou talvez tenha estudado no Colégio do Mosteiro. Por volta dos vinte anos, foi para Lisboa, antes de ter concluído os estudos. A sua família era pobre, mas pertencendo à Fidalguia, Luís Vaz de Camões pôde ser admitido na corte de D. João III e aí estabelecer contactos intelectuais, iniciando-se na Poesia, fazendo jus, à herança do seu avô paterno.

A sua vida de boémio, frequentando tabernas e envolvendo-se em escaramuças e relações amorosas complicadas, trouxe-lhe muitos dissabores. Muitas damas aparecem citadas, pelos seus próprios nomes, em algumas biografias do Poeta, como tendo sido motivação para grandes paixões, não se podendo confirmar, se correspondem à verdade, embora ninguém possa negar que foi um homem que se entregava a paixões fulgurantes e tivesse tido vários amores.
Tanto, tanto para contar, desta Alma Poética, cheia de imaginação e não medindo, algumas vezes, as consequências dos seus atos irreverentes. O dia da sua morte, 10 de junho, é comemorado em Portugal e em todos os lugares do mundo, onde se fala A BELA LÍNGUA DE CAMÕES, como o DIA DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES, porque este ilustre Poeta foi um cidadão do Mundo, que se imortalizou pela sua grandiosa obra POÉTICA.

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento, descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer, mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder;

É um querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Graça Foles Amiguinho

Graça Foles Amiguinho

Colaboradora Portuguesa

“Son Maria de Graça Foles Amiguinho Barros. Vivo en Vila nova de Gaia, pero nascín no Alentejo, nunha aldeia pequena chamada A Flor do Alto Alentejo.

Estudei en Elva. Fiz maxisterio en Portoalegre. Minha vida foi adicada ao ensino durante 32 anos, aos meus alumnos ensineilles a amar as letras, o país, as artes e a cultura. 

Meu começo coa poesia aconteceu de xeito dramático cando partin os dous braços, en 2004 comecei a escribir poesia compulsivamente, en 2005 xa tiña o primero libro editado  O meu sentir…”

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Lección 3 : Annabel lee por Anxo González Guerra

Lección 3 : Annabel lee por Anxo González Guerra

Nesta ocasión Anxo González Guerra, o noso mestre famoso en Luar, pon a proba a nosa competencia lingüística na nosa lingua irmá, centrándose na nosa capacidade ou destreza para comprender un texto en portugués, para o cal vai usar como instrumento da devandita comprobación nada máis e nada menos que a versión que Fernando Pessoa fixo do poema de Edgar Allan Poe Annabel lee.

Se no video anterior  Anxo falounos das viaxes que con tanta frecuencia realizabamos os galegos en tempos mellores a Portugal (e que agardamos poder seguir realizando sen moita demora) para amosarnos o vocabulario máis común que ten que ver con esta actividade, como os medios de transporte usados para o desprazamento, agora tocou o turno de poñernos as pilas e abrir as orellas para entender o que di ese poema de Allan Poe, Annabel lee.

Ben, isto e algunhas cousiñas máis, adobiadas polo bo facer na transmisión de coñecementos que caracteriza o noso prezado colaborador, pero para iso tedes que ver o vídeo, merece  ben a pena.

Grazas, Anxo, coma sempre. Sabemos que nos tes moitas sorpresas preparadas, agardamos impacientes.

Agardamos que vos guste.

Anxo González Guerra

Anxo González Guerra

Profesor de Galego

Son Anxo González Guerra. Crieme entre Trasar de Carballo e a Cervela, lugares da montaña luguesa. No Seminario tiven de profesor ao mestre das etimoloxías Nicandro Ares, no Instituto a Alonso Montero, no Colexio Universitario a Anxo Tarrío e na Facultade de Filoloxía a Carvalho Calero. Terán algo que ver en que sexa un dos integrantes da 1ª promoción de Galego-Portugués?

De xaneiro de 1980 a abril de 2015 fun profesor de Lingua Galega e Literatura no IES Sánchez Cantón onde tiven alumnos e alumnas marabillosos. Desde 2005 Vitoria Ogando e mais eu fomos poñendo materiais na Internet: ogalego.eu. E seguimos de xubilados.

Alá na miña terra da infancia aos xubilados dáselles por traballar unha ribeira ou un morteiro. A min dáseme por cousas de lingua e literatura, alí onde queiran escoitarme. A cabeza non para, non convén estar ocioso.

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Uma viagem singular e solitária a Santiago de Compostela por Manuel Vitorino

Uma viagem singular e solitária a Santiago de Compostela por Manuel Vitorino

Uma viagem singular e solitária

Manuel Vitorino

Há já muito tempo que sonhava fazer o caminho a pé até Santiago de Compostela. Não perguntem a razão, ou razões, mas a vida também é feita de mistérios, silêncios e, nem tudo é explicado à luz da racionalidade. Seja como for, o Caminho de Santiago com tudo aquilo que está subjacente em termos religiosos, fé, devoção, espiritualidade, conhecimento e cultura fazia parte dos meus planos. Assim, em Outubro de 2019, ou seja, antes da pandemia e após vários conselhos, palestras e algumas leituras, fiz-me ao Caminho. Tracei a rota e algumas linhas vermelhas: o trajecto seria efectuado sem companhia, isto é, caminhando e andando de uma forma solitária, introspectiva, com tempo para observar a Natureza e o património, parando ali e acolá, fotografando, olhando, admirando a paisagem. Sem pressas, sem constrangimentos de nenhuma espécie. Antes, com Liberdade.

Na minha mente e, antes da partida exclui, por opção, as datas festivas propícias às grandes aglomerações de pessoas, grupos de caminheiros com organizações ávidas de negócios. Sim, o Caminho de Santiago também foi contagiado pelo turismo massificado, pelos interesses de ocasião, pela lei da oferta e da procura. O Caminho já tinha começado na minha mente há muito tempo. Entrei às primeiras horas da manhã no comboio Porto/Vigo e, como cheguei cedo a Valença, não resisti a entrar na Fortaleza cheia de turistas ocupados nas tradicionais compras. Só foi tempo de tomar um café e dar corda às botas, isto é, fazer-me ao Caminho, dizer adeus à cidade fronteiriça, entrar em Tuí, olhar em passo apressado o casario antigo, subir a escadaria da  Catedral de Tui, dar um pulo à capela de San Telmo, padroeiro da cidade e rumar a outras paragens.

Caminheiros e geografias

Na curva da estrada, seguem-me outros caminheiros, na sua esmagadora maioria estrangeiros, gente de outros mundos e geografias. Todos desejam “Bom Caminho” e todos têm o mesmo propósito: chegar a Santiago de Compostela, entrar na catedral, assistir à missa do Peregrino e observar a cerimónia do “botafumeiro” na imponente e riquíssima Catedral. As pernas começam a habituar-se ao esforço físico e na passada, vou observando a paisagem soberba da ria de Vigo e depois, qual bálsamo para os sentidos, Porriño. Puxo a fita do tempo e recordo, com nostalgia e emoção, uma das minhas viagens ao célebre Festival de Poesia de Porriño, o encanto dos dias de festa, a troca de cumplicidades com nomes influentes das artes e das letras da Galiza, Xosé Luís Méndez Ferrín e o grande trovador Amâncio Prada, comovente e lírico ao entoar poemas de Rosalia de Castro. Em tempo: antes da pandemia virar o Mundo ao contrário, em Março de 2020, tive o privilégio de assistir a um memorável concerto no Seminário Menor de Braga, do cantor e autor de Adios Rios, Adios Fontes.

Redondela, um encanto

Depois de Porriño, seguiu-se Redondela, o ambiente da ruralidade galega está ao virar da esquina e, sigo por entre caminhos de campos agrícolas, vinhas, atravesso pontes e pequenos rios serpenteados por paisagens de encantar. Como não posso, melhor não devo, perder muito tempo à mesa, deixo a culinária local, os chocos, mais as ostras e os mexilhões para mais tarde e após algumas horas de descanso, sigo em direcção a Pontevedra, cuja cidade medieval e cheia de património tinha conhecido há vários anos, dantes caótica em termos de trânsito e agora, fruto da revolução urbana levada a efeito pelas autoridades locais, devolvida às pessoas, aos habitantes e aos turistas. Como foi bom regressar a Pontevedra, fotografar o Centro Histórico, entrar na Igreja da Virgem Peregrina em forma de vieira, carimbar a caderneta e cirandar pela cidade. Ficava por cá mais algum tempo, mas o caminho ainda é longo. Recolho-me aos aposentos e preparo a jornada seguinte, Caldas dos Reis, cerca de 18,5 Km.
Apesar de ser Outono, a temperatura está pouco amena e só a minha condição de peregrino continua nas alturas. Ainda tento saber como posso tomar um banho retemperador nas Termas de Caldas dos Reis, mas sem reserva tal não foi possível. Optei por descansar alguns minutos e aproveito para enganar o estômago, ingerir líquidos, muitos líquidos para continuar em boa forma física. Consulto o guia de viagem e vejo a próxima etapa, Padrón, mais 18,5 km em cima dos 22 já efectuados. Dois motivos forçam a seguir viagem: visitar a casa de Rosalia de Castro (e saborear os famosos pimentos) e conhecer a Fundação de Camilo José Cela, autor de “Mazurca para dois mortos”, Prémio Nacional de Literatura (1984) e Prémio D. Dinis, atribuído pela Fundação da Casa de Mateus. O primeiro desejo foi cumprido. Cheguei a Padrón ainda a tempo de visitar a Casa/Museu Rosalia de Castro, repositório de recordações, memórias e lugar de reencontro com uma das escritoras e poetisas mais importantes da nossa contemporaneidade. A emoção tomou conta do lugar. Por falta de tempo, já não pude visitar a vetusta Fundação de Camilo José Cela, mas em Padrón, um dos jardins principais faz a sua evocação e memória

A última etapa Padrón/Santiago de Compostela, já foi uma espécie de “Passeio no Parque”, cerca de 25 km, por entre bosques, encostas, aldeias com casario muito antigo, cruzeiros e alminhas. E quando lá de longe, vislumbro a parte alta da torre sineira da Catedral o meu caminho é outro, os dias de azáfama e as noites mal dormidas ganham outro sentido, mais ainda, quando entro na Catedral e cumpro a promessa, ou o desejo secreto de me deixar envolver na mística e espiritualidade de Santiago. Não há um Caminho. Antes, vários caminhos e confluências. Cada um faz o seu como entende e ao seu ritmo. Com fé, descoberta, reencontro consigo próprio num exercício salutar de liberdade e conhecimento

Heróis e cumplicidades

Uma nota final para acrescentar o seguinte: no fim desta jornada fiquei mais rico do que estava antes da partida. Fui só, mas nunca andei só. Pelo caminho, encontrei gente maravilhosa, cúmplice, até fiz amigos, mas o meu herói nesta maratona foi um jovem vindo da Ucrânia, deficiente físico de uma perna. Fez um esforço incrível e com o auxílio de duas muletas ortopédicas conseguiu andar centenas de quilómetros. Por várias vezes, fui-me cruzando com ele e reparei no enorme esforço físico despendido, apenas atenuado com a  ajuda de duas compatriotas.

Tal como eu, chegou à Praça do Obradoiro numa tarde de chuva miudinha, cansado, feliz e com um sorriso enorme. Nem foram precisas grandes palavras para descrever o contentamento estampado no rosto. O santo padroeiro acabou de fazer mais um milagre. Fazer o Caminho a Santiago já deixou há muitos séculos, de ser sinónimo de expiação de penas e castigos. Compostela é um lugar santo, fé, religiosidade, encontro de culturas. O meu foi tudo isto e muito mais: uma mistura de sentimentos, emoções, descobertas.

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

A pandemia mudou o mundo

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