Uma noite de Janeiro por António Silva

Uma noite de Janeiro por António Silva

Uma noite de Janeiro 

 Declinava o dia

A lareira acesa

Denunciava o frio de Janeiro, 

E pelas frestas da casa de madeira 

A luz do candeeiro a petróleo 

Fazia as sombras aumentarem 

Na parede da casa branca

E o silêncio toma conta da minha rua, 

O ferro de engomar 

Ainda tinhas as brasas acessas

Depois de engomar as calças de sarja

Remendadas e já gastas pelo uso,

O relógio da torre adormecia 

Do cansaço do dia

E a lua já espreitava 

Sobre a sombra dos miósporos, 

A noite fria de Janeiro 

Trazia consigo uma antiga lembrança

E eu escrevia 

Palavras do avesso 

Num poema de criança 

Porque eu me debruçada 

Sobre a janela da vida,

Ao longe ouvia o som do mar

E seu convite para visitar as marés 

E senti o sabor da maresia, 

Mas a voz da noite

Continuava a chamar por mim

E eu me abandonava 

Ao som do crepitar da lareira

Observando os vultos que a luz fazia

Na parede da casa branca 

E na rua, o frio de Janeiro.

 

António Silva 

                                   Dezembro de 2021

António Silva

António Silva

Poeta

Eu me chamo António Silva. Sou português e da província do Baixo Alentejo. Gosto muito de pintar e escrever poesia.

Meus poemas são pequenas pinturas coloridas. Cada tela que pinto é um poema colorido. E meus poemas são pinturas que retratam pedaços da minha vida. Recordações de infância que ficaram gravadas em meu coração. Eu gosto de colorir a vida com meus poemas e minhas pinturas. Assim a vida é mais fácil e mais bonita. Pinto e escrevo, como se ainda eu fosse uma criança.

Pois por dentro, eu não mudei, sou uma criança que tem um corpo de adulto.

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Liçao 6: A lusofonía por Anxo González Guerra

Liçao 6: A lusofonía por Anxo González Guerra

Anxo González Guerra nesta 6 lição fálanos da Lusofonía

A lusofonía é o conxunto de países que teñen como lingua oficial o portugués, que é lingua oficial en nove países: Portugal, Brasil, Cabo Verde, Guinea- Bissau, Angola, Mozambique, Guinea Ecuatorial, San Tomé e Príncipe e Timor Oriental.

Por iso, é necesario fomentar o ensino e a aprendizaxe do portugués, co obxectivo, entre outros, de que empresas e institucións aproveiten a nosa vantaxe lingüística, xa que o galego, polo feito de ser intercomprensible co portugués, outorga importantes beneficios en moitas vertentes, concretamente na cultural, pero tamén na económica, e concédenos, por tanto, unha gran proxección internacional. Conscientes das devanditas vantaxes, o Parlamento de Galicia aprobou a Lei para o aproveitamento da lingua portuguesa e vínculos coa lusofonía.

Anxo González Guerra

Anxo González Guerra

Profesor de Galego

Son Anxo González Guerra. Crieme entre Trasar de Carballo e a Cervela, lugares da montaña luguesa. No Seminario tiven de profesor ao mestre das etimoloxías Nicandro Ares, no Instituto a Alonso Montero, no Colexio Universitario a Anxo Tarrío e na Facultade de Filoloxía a Carvalho Calero. Terán algo que ver en que sexa un dos integrantes da 1ª promoción de Galego-Portugués?

De xaneiro de 1980 a abril de 2015 fun profesor de Lingua Galega e Literatura no IES Sánchez Cantón onde tiven alumnos e alumnas marabillosos. Desde 2005 Vitoria Ogando e mais eu fomos poñendo materiais na Internet: ogalego.eu. E seguimos de xubilados.

Alá na miña terra da infancia aos xubilados dáselles por traballar unha ribeira ou un morteiro. A min dáseme por cousas de lingua e literatura, alí onde queiran escoitarme. A cabeza non para, non convén estar ocioso.

Viaxar a Portugal

Liçao 5

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“ O Porto da minha infância” por Manuel Vitorino

“ O Porto da minha infância” por Manuel Vitorino

O Porto da miña infância.

Manuel Vitorino

“O Porto tem uma atmosfera muito especial. Ainda não perdeu a sua identidade. Ainda vejo lojas tradicionais, bairros antigos, gente boa”, dizia-me, há tempos, um amigo italiano, de Turim que, mal aterrou no Aeroporto Francisco Sá Carneiro ficou deslumbrado pela cidade. “Vim da neve para o sol”, sorriu feliz e contente, mais ainda por provar um saboroso “prato de tripas à moda do Porto” e depois, ter dado um pulo a Serralves e ter-se encantado pelas exposições de arte e fabulosos jardins.

O que tem o Porto de especial? Sim, eu sei que é a melhor cidade do mundo para viver (nasci por aqui e quanto mais viajo, mais apetece voltar às origens) mas quero crer que a cidade de Eugénio, Agustina e Garrett soube juntar património, modernidade, tradição e cultura, sem esquecer a hospitalidade e segurança para vencer outras capitais apostadas no reconhecimento e igualmente cheias de monumentalidade como Paris, Roma, Londres.

A imprensa internacional (jornais e revistas) continua a dedicar ao Porto várias páginas e, em competição com outras urbes europeias, ganha-lhes a palma de ouro. A última vez aconteceu há quatro anos ao arrebatar o prémio de Melhor Destino Europeu em 2017. A cidade está de parabéns e tal como o meu amigo italiano, milhares de turistas visitam, anualmente, a Casa da Música , Museu de Serralves, deslumbram-se com a igreja e a torre dos Clérigos, fazem “selfies” no Palácio da Bolsa e diante dos azulejos de Jorge Colaço na Estação de S. Bento, na Universidade do Porto e no Centro Português de Fotografia, ou as galerias Mira Fórum, em Campanhã (onde estão sempre a acontecer mil e uma coisas ligadas à fotografia e às artes performativas) mais as belezas do Douro e suas pontes, sem esquecer as delícias dos bons vinhos e gastronomia (em nenhum país da Europa ainda se consegue jantar tão bem e barato como na Invicta…) mais as artes e a cultura. A metamorfose acontece e só não vê quem não quer.

Estación San Bento
Arquitectura Porto

Sim, eu sei nem tudo são rosas, existem erros de palmatória, muitos velhos que nasceram e viveram toda a vida no centro histórico foram pura e simplesmente, obrigados a deixar as suas casas onde nasceram e viveram para os “investidores estrangeiros”, na maior parte dos casos, fundos de investimento construírem apartamentos T0 e T1 para Alojamento Local apenas acessível para turistas mais ou menos endinheirados. Uma vergonha, tal e qual, como aconteceu em algumas cidades com dimensão europeia, Lisboa, Barcelona, Veneza…

 Antes da pandemia, bastava dar um pulo à Baixa para ver a regeneração urbana, a quantidade de guindastes no alto das fachadas dos prédios muitos deles até há alguns anos em ruínas ou abandonados, tropeçar nas ruas sempre cheias de turistas, descer a Rua das Flores, porventura a mais bonita da cidade ou subir Mouzinho da Silveira e perceber a revolução urbana levada a efeito nos últimos anos. E constatar uma certeza: o turismo já não é apenas sazonal, acontece todos os meses do ano e contribuiu para mudar radicalmente a face urbana da cidade. Queira-se ou não o Porto do séc. XXI já não tem nada a ver com o Porto cinzentão e triste do século passado, onde era quase proibido circular à noite em Sampaio Bruno ou em Sá da Bandeira, ruas desertas após o fecho dos escritórios e comércio, passo apressado até à paragem do autocarro. A cidade adormecia. Até ao dia seguinte.

Vello Porto
Ponte de Oporto

Quanto às artes pouco ou nada acontecia. Existiam muitos cinemas que, devido às modas e à contínua desertificação da cidade foram fechando portas; algumas peças de teatro de revista no Sá da Bandeira, meia dúzia de galerias de arte, com papel de destaque para a pioneira Alvarez do pintor Jaime Isidoro e a galeria 2, mais a “111” do coleccionador de arte Manuel de Brito, em D. Manuel II, sem esquecer muitas outras que, tiveram vida efémera, como, por exemplo, a galeria Abel Salazar (do pintor João Martins) na Rua do Barão de Forrester, à Ramada Alta.

E depois, existiam algumas instituições culturais que, contra ventos e marés, souberam resistir à Censura e ao Fascismo: o TEP de António Pedro, cujo teatrinho de bolso nunca devia ter sido demolido; o Cineclube do Porto e “Os Modestos”, cujos edifícios em ruínas cederam a interesses hoteleiros; a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, mais o Clube dos Fenianos Portuenses, Ateneu Comercial do Porto, Teatro Universitário do Porto, o Círculo de Cultura dos Operários Católicos do Porto, o Orfeão do Porto, o Museu Nacional Soares dos Reis que, entre outras actividades expositivas acolheu, em meados da década de 70, o Centro de Arte Contemporânea (CAC) orientado pelo crítico e historiador de arte Fernando Pernes cuja persistência e dinamismo o Porto muito devem no aparecimento do Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

Oporto de noite
O Porto

Sem agenda cultural digna de registo só restava aos portuenses uma opção para quem queria (e podia) admirar arte, pintura, escultura e fotografia ou assistir a concertos: viajar até Lisboa, apanhar o comboio “Foguete” (cujo bilhete à época custava 500 escudos, 2, 5 euros actuais) e rumar até à Fundação Calouste Gulbenkian cuja actividade cultural e filantrópica continua ontem como hoje a ser assinalável e merecedora de todos os elogios.

 Na memória retenho um facto histórico e revelador da falta de investimento na educação pela arte, conhecimento e consequentemente, no afastamento do grande público para a fruição cultural. Em 1983, no âmbito do Festival de Música da Póvoa de Varzim, o Teatro Rivoli abriu portas para um recital com o grande pianista Alfred Brendel  (n. 1931) já na altura laureado e afamado intérprete de Mozart, Beethoven e Brahms. A sala estava a meio gás e soube depois, apenas foi composta graças à presença de algumas dezenas de espectadores vindos de Lisboa que, quando souberam da presença de Brendel no Porto, alugaram um autocarro e vieram à Invicta ver e ouvir o famoso pianista. Passados alguns anos, em 2005, Brendel veio à Casa da Música para inaugurar a temporada de piano e a Sala Suggia encheu-se de público entusiasta. E em Outubro de 2018 o lendário pianista austríaco – que entretanto abandonou os palcos – voltará à Casa da Música para uma palestra recital intitulada “On Playing Mozart” e desta feita, desvendar alguns dos segredos da sua longa carreira artística e referência mundial do piano. Tenho a certeza que o concerto será bastante concorrido.

Volvidos alguns anos não foi só a urbe que mudou. O modo de encarar e fazer cultura entrou nos hábitos do espectadores. Tudo é diferente. As salas de teatro, os espectáculos de artes performativas e os concertos estão quase sempre lotadas, as exposições têm um público fiel, o Centro Português de Fotografia, o Teatro Nacional S. João, Serralves e a Casa da Música são destinos frequentados por milhares de visitantes. 

Como não podemos perder a memória, será da mais elementar justiça evocar Paulo Cunha e Silva , um visionário da Cultura, das Artes e das Ciências, um homem sábio que seguiu à risca um dos pensamentos do grande Mestre Abel Salazar (“um estudante de Medicina que só estudou Medicina nem Medicina sabe”) e que cruzou as artes, todas as artes e que colocou a Cultura como centro de toda a sua vida e pensamento. Depois dos “anos de chumbo” levados a efeito por RR (um dos períodos mais negros na história do Porto…) a cidade elegeu,  pela primeira vez, um vereador da Cultura à altura dos seus pergaminhos, cujo modo de observar a “cidade líquida” marcou para sempre as artes, o modo de programar culturalmente uma grande metrópole.

Sim, o Mundo Mudou. O Porto também. Eu prefiro o Porto de hoje ao Porto de antigamente.

(”O Porto da minha Infância” é título de um filme de Manoel de Oliveira. E também homenagem ao cineasta que amou o Porto).

Manuel Vitorino

Todas as fotografías deste artigo son de Pixabay

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

O Douro de Torga continua belo

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Natal de HOJE e de ONTEM por Graça Foles

Natal de HOJE e de ONTEM por Graça Foles

Há tradições que a nossa gente nunca esquece. Estão, geralmente, associadas a festividades religiosas ou profanas.

Hoje, vou falar-vos da maior de todas e a mais delicada, porque nos envolve em sentimentos de amor e saudade. Amor, porque é a Festa da Família; Saudade, porque recordamos os que amamos e já não vemos sentados à mesa, na ceia que preparamos com desvelo, ou porque abalaram para outras terras, em busca de uma vida melhor, ou porque partiram para o Além, de onde nunca mais voltarão.

Está prestes a noite mais longa do ano, a noite em que as ruas das cidades e aldeias ficam desertas, porque todos já estão reunidos em ambiente familiar para festejarem, com amor, o Natal.

É uma festa profundamente Cristã, porque se celebra o nascimento do Menino mais desejado, o Salvador do Mundo, o Jesus de Nazaré.

Mas a verdade é que, nem só os Cristãos estão unidos nessa festividade. Muitos não crentes, mas que acreditam no Amor, a celebram, também.

Com bastante antecedência, as igrejas, as ruas, os centros comerciais, as pequenas lojas, as nossas casas e até as árvores das grandes avenidas se enfeitam com luzes das mais diversas cores e de formas sugestivas: pinheirinhos, anjos, estrelas, sinos, azevinho, estando sempre em grande destaque o presépio, a humilde cabana onde nasceu Jesus, aquecido pelo bafo da vaquinha e do jumento, que os tinha levado a Belém.

Niña

São representações com grande simbolismo na nossa cultura e continuam encantando as crianças, pela magia que as envolve, associadas a tantas músicas tradicionais que transbordam esse espírito sentimental, quase inexplicável, mas que é o reflexo do amor que desejamos ver pairar em todas as famílias deste mundo, por vezes tão conturbado e desumano, no sonho de derrubarmos todas as barreiras, para que não haja qualquer tipo de discriminação.

A esta época Natalícia, poucos ficam indiferentes, havendo mais manifestações de solidariedade, abrindo-se as portas, com carinho, aos marginalizados, aos sem-abrigo, aos idosos, às crianças abandonadas e aos mais pobres.

Quantas vezes pensamos, que “Natal” deve ser todos os dias, porque, afinal, a partilha de amor e a fraternidade são intemporais.

Porém, a realidade por vezes, é dura e mostra-nos as desigualdades sociais existentes aqui e noutros pontos do planeta.

Em contradição, nos países onde a riqueza abunda, nesta ocasião Natalícia, o consumo de bens aumenta, porque a publicidade incentiva a comprar, para além do essencial.

Com essa atitude, procuramos, muitas vezes, manifestar o amor que sentimos uns pelos outros, de uma forma palpável, oferecendo prendinhas embrulhadas em lindos papéis coloridos e brilhantes, sinal da alegria que nos envolve o coração.

Nesta altura do ano, a maioria das famílias já tem a sua sala enfeitada com um pinheirinho, elemento de tradição nórdica, mas  que se tornou habitual entre nós, coberto de fitas, laços multicolores, bolas de todas as cores, luzes que piscam, nunca esquecendo, na sua base, a cabaninha do presépio com a Sagrada Família: S. José, apoiado no seu cajado, a Virgem Maria, ajoelhada, frente ao simples berço, onde o seu Menino, deitado sobre as palhinhas, de braços abertos, nos quer abraçar e, na rectaguarda, lá estão a vaquinha e o burrinho, aquecendo com o seu bafo, o lindo nascituro.

Há ainda quem complete a cena com os pastores e os seus rebanhos, as lavadeiras e mais ao longe, os três Reis Magos, vindos do Oriente, guiados por uma estrela, até à Lapinha de Belém, onde chegaram, dias mais tarde, fugindo à maldade de Herodes.

Tudo isto encanta as crianças e o conhecimento da vida de Jesus poderá incutir no seu espírito, sentimentos de solidariedade e fraternidade.

Se vos contar como era festejado o Natal no meu tempo de criança, há 70 anos, numa pequena Aldeia do interior do Alentejo, poderão entender quantas diferenças, hoje existem. Mas, também vos posso afirmar que, apesar de tudo, éramos tão felizes, como se tivéssemos o mundo nas nossas mãos.

Vivia-se com muito pouco. Eram tempos de muita pobreza. As famílias eram numerosas e para que os filhos não passassem fome, pudessem andar vestidos e calçados, muito sofriam, os mais velhos.

Por isso mesmo, as prendinhas que esperávamos no sapatinho, colocado na chaminé, na noite de Natal, eram recebidas com tanta alegria, como se fossem um verdadeiro tesouro. Bastavam-nos uns pequeninos chocolatinhos, envoltos em papel de prata colorida e ficávamos radiantes.

Era hábito, mesmo nas casas dos pobres, na noite de Natal, fazerem-se os “fritos”. Farinha de trigo, amassada com banha de porco e sumo de laranja. A massa era tendida em pequenos pedaços, com um rolo de madeira e depois recortada com uma cartilha, sobre uma tábua larga que a minha Mãe colocava no colo, sentadinha numa cadeira baixinha, junto à lareira acesa na chaminé, e o meu Pai encarregava-se de fritar as filhós numa sertã, bem cheia de azeite puro, virando-as para ficarem loirinhas e estaladiças.

Eram depois colocadas num grande alguidar de barro e polvilhadas com açúcar e canela. Uma verdadeira delícia.

Porém, o que não podia faltar, na noite de Natal, eram as azevias. A massa era parecida à das filhoses, mas havia um recheio muito especial para colocar dentro delas. Talvez um doce único, feito com grão-de-bico bem cozido e libertado das películas, esmagado com um passe-vite, misturado com açúcar, levado a lume brando e no final misturavam-se umas gemas de ovos e raspa de limão. Doce nutritivo e saudável que nos dava um prazer enorme comer, mesmo durante os dias que se seguiam à Festa de Natal.

Como refeição, nessa noite tão bonita, comíamos arroz de bacalhau e no dia de Natal, havia o frango frito, bem temperado e muito saboroso.

Não poderei deixar de vos contar que, durante a noite festiva, na minha Aldeia, havia sempre uns cantadores que se dispunham a andar de porta em porta, envoltos nos seus capotes com belas golas de raposas, para se protegerem do frio, que nessa altura é de enregelar, tocando as roncas e cantando ao Deus Menino.

Tradições que se mantêm vivas, ainda, e que são apreciadas por muita gente, além- fronteiras.

À meia-noite do dia 24 de dezembro, ninguém faltava à Missa do Galo, na Igreja paroquial. Muitas regiões de Portugal continuam praticando este ritual religioso.

É assim chamada essa celebração, porque uma lenda muito antiga, contada nos países latinos, revela que à meia-noite, do dia 24 de dezembro, um galo cantou, como nunca se ouvira outro animal da mesma espécie cantar, anunciando a vinda do Messias, o filho de Deus vivo, Jesus Cristo.

Lendas ou histórias reais dão mais vida, aos dias que vivemos. Assim, para terminar, aqui vos deixo um tradicional conto de Natal, que podereis ler aos vossos filhos e, certamente, eles ficarão encantados com a sua singeleza, desejando-vos um Feliz Natal, com muita paz e saúde.

Pela noite de Natal

Pela noite de Natal, noite de tanta alegria, caminhando vai José, caminhando vai Maria.

Vão os dois para Belém, mais de noite que de dia e chegaram a Belém, já toda a gente dormia.

– Abri a porta, porteiro, porteiro da portaria!

Não deu resposta o porteiro, porque também já dormia.

Buscou lenha S. José, porque a noite estava fria e deixou ao desamparo, sozinha, a Virgem Maria.

Quando voltou S. José, já viu a Virgem Maria com um sorriso nos lábios, enquanto Jesus dormia.

Vêm os Anjos dos céus, a cantar Avé Maria!

Hoje mesmo, em Belém, nasceu Jesus de Maria!

Graça Foles Amiguinho

Graça Foles Amiguinho

Colaboradora Portuguesa

“Son Maria de Graça Foles Amiguinho Barros. Vivo en Vila nova de Gaia, pero nascín no Alentejo, nunha aldeia pequena chamada A Flor do Alto Alentejo.

Estudei en Elva. Fiz maxisterio en Portoalegre. Minha vida foi adicada ao ensino durante 32 anos, aos meus alumnos ensineilles a amar as letras, o país, as artes e a cultura. 

Meu começo coa poesia aconteceu de xeito dramático cando partin os dous braços, en 2004 comecei a escribir poesia compulsivamente, en 2005 xa tiña o primero libro editado  O meu sentir…”

A “ronca” e os cantares ao Menino

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A alegria do nascimento por Risoleta C. Pinto Pedro

A alegria do nascimento por Risoleta C. Pinto Pedro

Foi relativamente tardio o meu encontro com a Galiza, por circunstâncias da vida que me condicionaram na exploração do espaço em que surgi, mas nem por isso foi menos intenso.

Nascida na raia alentejana, perto de Badajoz, ouvindo desde o berço as minhas avós misturarem o castelhano com o português, cedo interiorizei a irmandade dos dois países, embora Espanha tivesse começado por ser, para mim, Estremadura e Andaluzia.

Mas mais tarde, já adulta, participei num encontro de poetas em Vigo, e já aí se descortinou uma outra Espanha, impressionantemente próxima do meu berço, das minhas canções de embalar e das histórias das minhas avós. Ouvir falar galego era como se ainda não tivesse atravessado a fronteira, sabendo que o tinha feito, como se ainda estivesse no Minho, mas mais que isso, era como se não se tivessem passado assim tantos séculos desde a formação da nacionalidade e ali nos reuníssemos todos outra vez no melhor daquilo que nesse tempo fomos. Ainda hoje tenho dificuldade em, ao primeiro contacto, distinguir um minhoto de um galego, no falar. Mas a experiência mais profunda foi a sensação de transporte, mais do que recuo no espaço, a viagem no tempo. Muito, muito próxima da pureza da língua, da música da fala, da origem do mistério.

Voltemos aos poetas. Já conhecia Rosalía, essa renascedora ou parteira da poesia galega após séculos de ocultamento, mas quando, por duas vezes, percorri o caminho de Santiago a pé, a partir do Porto, a poesia galega que até aí era letra, ganhou voz, ar, corpo e substância. Cor, sabor, cheiro, movimento. Outras vezes fiz de automóvel a viagem, o que permitiu “visitar Rosalía”, que se encontra, estrategicamente, no caminho. É um dos santuários do percurso, como as capelas, as árvores, os rios, as pedras, as fontes, as pontes…

Rosalía de Castro

Rosalía de Castro  por Luis Sellier

Pedra coraçao

Não é o mesmo, chegar de carro a uma aldeia, ou depois de ter percorrido entre 15 e 30 quilómetros a pé, falando com as pessoas, ouvindo histórias, sentindo a suavidade ou a dureza do chão, sorrindo muito, cantando e chorando às vezes, sentindo-nos em casa, pelo som, que é sempre o nosso primeiro contacto com o mundo exterior, ainda na barriga da mãe.

Por essa razão, se mais não houvesse, que as há, como veremos, é para mim um prazer, uma alegria e um privilégio que agradeço, poder visitar esta bela página escrevendo na minha língua, sabendo que nos entenderemos perfeitamente, emissores e receptores, e sabendo que nos entendemos perfeitamente através da música com que falamos e lemos, e através da geometria com que escrevemos. Voltarei a este assunto. E a outros. Nomeadamente, uma gramática espanhola que segundo um querido filósofo português, é a melhor gramática da língua portuguesa. Um paradoxo que vale a pena explorar. Entretanto, amigos e amigas da Galiza, faço um brinde convosco, erguendo o meu copo de queimada em ritual respeitoso, esconjurando o mal como coisa de passado, e celebrando as artes, a literatura e a poesia em particular, como a língua do futuro. Em galaico-português,«Bailemos nós já todas três ai amigas». Bailemos mais, bailemos todos, nestas noites frias, perante um presépio onde um Menino antigo pede que lhe cantemos uma canção de embalar, o que faremos numa língua entre o português e o galego que uma vez aprendi e muitas vezes cantei e canto: «Anda durmete nino, que viene el coco, a comere los ninos que durmem poco […] anda durmete nino, e durme sin medo, aunque silben los aires e grunhan los perros». É um prazer iniciar estas crónicas com votos de Feliz Natal! Quanta esperança transportam sempre consigo os nascimentos!

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Risoleta C. Pinto Pedro, Lisboa

Colaboradora Portuguesa

Risoleta C. Pinto Pedro, nascida em Elvas, é autora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, ensaio, crónica periodística e radiofónica (Antena 2), conto infantil e BD, assim como ópera, canção, cantata e musical, tendo escrito libretos a convite dos compositores Jorge Salgueiro, Paulo Brandão e Helena Romão, com incursões também na escrita para dança (Companhia de Dança Amalgama). Tem mais de vinte obras publicadas, para além de colaboração em revistas, catálogos, manuais e colectâneas. Na ficção recebeu o Prémio Revelação APE/IPBL, O Aniversário, 1994; Ferreira de Castro (A Criança Suspensa 1995), tendo sido duas vezes distinguida na poesia pela Sociedade da Língua Portuguesa. Foi professora de Literatura em várias escolas, nomeadamente, e durante mais tempo, na Secundária Artística António Arroio. Tem escrito e feito conferências sobre as obras de: Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Sebastião da Gama, Bocage e Jaime Salazar Sampaio, entre outros. Mais recentemente, tem estudado, escrito e publicado ensaio sobre a obra dos filósofos Agostinho da Silva (A Literatura de Agostinho da Silva, essa alegre inquietação, 2016) e António Telmo (António Telmo- Literatura e Iniciação, 2018), pela editora Zéfiro. Publicou, recentemente, três livros pela editora Sem Nome: Cantarolares, um Sabor Azul (poesia, 2017), Ávida Vida (poesia, 2018) e A Vontade de Alão (novela, 2019). No prelo, a sair no próximo Janeiro, uma novela a anunciar em breve, e em avançado trabalho editorial, dois livros de poesia, um deles já projectado para meados de 2022.

Blogue: http://aluzdascasas.blogspot.com/

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A “ronca” e os cantares ao Menino Deus no Alto Alentejo por Graça Foles

A “ronca” e os cantares ao Menino Deus no Alto Alentejo por Graça Foles

Guardada na nossa memória colectiva, a “ronca” é associada aos mais doces momentos vividos na nossa vida nas aldeias do nosso Alentejo.

E é com imensa alegria que podemos dizer que é genuinamente portuguesa.

Instrumento de fabrico artesanal, acessível aos antigos pastores, porqueiros ou caçadores, pois na sua confecção é apenas necessário um recipiente oco tal como uma lata ou cantarinha de barro, uma pele de cabra, borrego, coelho ou até mesmo uma bexiga de porco, tudo serve para nela se enrolar uma cana ao meio, bem esticada a pele e amarrada ao bocal da peça.

As nossas cantigas ao Menino na Noite de Natal, à volta do madeiro fumegando na grande chaminé, tinham mais força e encanto acompanhadas com o toque da ronca.

Processo de produção das Roncas.

Este instrumento musical chama-se «membrafone friccionado». Todos sabemos que quem o toca tem que molhar a cana com um pano húmido ou cuspir na mão como o faziam os nossos antepassados.

O som obtido, movimentando a cana de cima para baixo de forma a friccionar a pele, é algo muito alentejano.

Cantar dolente e sentido, vozes fortes e bem timbradas ecoavam nas noites gélidas de Janeiro pelas ruas das nossas aldeias do Alto Alentejo celebrando a festa dos Reis.

Nunca me passou pela ideia de onde vinha este nome, qual o seu significado. Fiquei surpreendida e como achei graça, aqui vos deixo a informação.

A “ronca” também se pode denominar “sarronca ou farronca”

“Farronca, sarronca ou ronca” é um «ser» da mitologia infantil portuguesa.

Semelhante ao «bicho-papão» é um ser comedor de crianças desobedientes, mal-mandadas e que vão para onde os pais não as deixam ir por serem perigosos. Então, se a criança se porta mal, a «farronca» esconde-se nesses lugares e espera as crianças desobedientes. Esse «ser» punidor não tem imagem, é apenas um som assustador.

São apenas coisas que se contam.

Como instrumento musical tem ainda outras denominações: roncador, tambor-onça, porca, quica adufe, omelê.

Este lindo Canto ao Deus Menino, característico de Campo Maior, “Ó meu Menino Jesus” é um dos mais antigos que a minha Mãe me ensinou e que jamais esqueci por faz parte de uma tradição que não podemos de forma alguma deixar morrer.

Oiça com o coração e recordará os seus tempos de criança.

Graça Foles Amiguinho

Graça Foles Amiguinho

Colaboradora Portuguesa

“Son Maria de Graça Foles Amiguinho Barros. Vivo en Vila nova de Gaia, pero nascín no Alentejo, nunha aldeia pequena chamada A Flor do Alto Alentejo.

Estudei en Elva. Fiz maxisterio en Portoalegre. Minha vida foi adicada ao ensino durante 32 anos, aos meus alumnos ensineilles a amar as letras, o país, as artes e a cultura. 

Meu começo coa poesia aconteceu de xeito dramático cando partin os dous braços, en 2004 comecei a escribir poesia compulsivamente, en 2005 xa tiña o primero libro editado  O meu sentir…”

Um passeio pola cidade do Porto

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