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Uma viagem singular e solitária

Manuel Vitorino

Há já muito tempo que sonhava fazer o caminho a pé até Santiago de Compostela. Não perguntem a razão, ou razões, mas a vida também é feita de mistérios, silêncios e, nem tudo é explicado à luz da racionalidade. Seja como for, o Caminho de Santiago com tudo aquilo que está subjacente em termos religiosos, fé, devoção, espiritualidade, conhecimento e cultura fazia parte dos meus planos. Assim, em Outubro de 2019, ou seja, antes da pandemia e após vários conselhos, palestras e algumas leituras, fiz-me ao Caminho. Tracei a rota e algumas linhas vermelhas: o trajecto seria efectuado sem companhia, isto é, caminhando e andando de uma forma solitária, introspectiva, com tempo para observar a Natureza e o património, parando ali e acolá, fotografando, olhando, admirando a paisagem. Sem pressas, sem constrangimentos de nenhuma espécie. Antes, com Liberdade.

Na minha mente e, antes da partida exclui, por opção, as datas festivas propícias às grandes aglomerações de pessoas, grupos de caminheiros com organizações ávidas de negócios. Sim, o Caminho de Santiago também foi contagiado pelo turismo massificado, pelos interesses de ocasião, pela lei da oferta e da procura. O Caminho já tinha começado na minha mente há muito tempo. Entrei às primeiras horas da manhã no comboio Porto/Vigo e, como cheguei cedo a Valença, não resisti a entrar na Fortaleza cheia de turistas ocupados nas tradicionais compras. Só foi tempo de tomar um café e dar corda às botas, isto é, fazer-me ao Caminho, dizer adeus à cidade fronteiriça, entrar em Tuí, olhar em passo apressado o casario antigo, subir a escadaria da  Catedral de Tui, dar um pulo à capela de San Telmo, padroeiro da cidade e rumar a outras paragens.

Caminheiros e geografias

Na curva da estrada, seguem-me outros caminheiros, na sua esmagadora maioria estrangeiros, gente de outros mundos e geografias. Todos desejam “Bom Caminho” e todos têm o mesmo propósito: chegar a Santiago de Compostela, entrar na catedral, assistir à missa do Peregrino e observar a cerimónia do “botafumeiro” na imponente e riquíssima Catedral. As pernas começam a habituar-se ao esforço físico e na passada, vou observando a paisagem soberba da ria de Vigo e depois, qual bálsamo para os sentidos, Porriño. Puxo a fita do tempo e recordo, com nostalgia e emoção, uma das minhas viagens ao célebre Festival de Poesia de Porriño, o encanto dos dias de festa, a troca de cumplicidades com nomes influentes das artes e das letras da Galiza, Xosé Luís Méndez Ferrín e o grande trovador Amâncio Prada, comovente e lírico ao entoar poemas de Rosalia de Castro. Em tempo: antes da pandemia virar o Mundo ao contrário, em Março de 2020, tive o privilégio de assistir a um memorável concerto no Seminário Menor de Braga, do cantor e autor de Adios Rios, Adios Fontes.

Redondela, um encanto

Depois de Porriño, seguiu-se Redondela, o ambiente da ruralidade galega está ao virar da esquina e, sigo por entre caminhos de campos agrícolas, vinhas, atravesso pontes e pequenos rios serpenteados por paisagens de encantar. Como não posso, melhor não devo, perder muito tempo à mesa, deixo a culinária local, os chocos, mais as ostras e os mexilhões para mais tarde e após algumas horas de descanso, sigo em direcção a Pontevedra, cuja cidade medieval e cheia de património tinha conhecido há vários anos, dantes caótica em termos de trânsito e agora, fruto da revolução urbana levada a efeito pelas autoridades locais, devolvida às pessoas, aos habitantes e aos turistas. Como foi bom regressar a Pontevedra, fotografar o Centro Histórico, entrar na Igreja da Virgem Peregrina em forma de vieira, carimbar a caderneta e cirandar pela cidade. Ficava por cá mais algum tempo, mas o caminho ainda é longo. Recolho-me aos aposentos e preparo a jornada seguinte, Caldas dos Reis, cerca de 18,5 Km.
Apesar de ser Outono, a temperatura está pouco amena e só a minha condição de peregrino continua nas alturas. Ainda tento saber como posso tomar um banho retemperador nas Termas de Caldas dos Reis, mas sem reserva tal não foi possível. Optei por descansar alguns minutos e aproveito para enganar o estômago, ingerir líquidos, muitos líquidos para continuar em boa forma física. Consulto o guia de viagem e vejo a próxima etapa, Padrón, mais 18,5 km em cima dos 22 já efectuados. Dois motivos forçam a seguir viagem: visitar a casa de Rosalia de Castro (e saborear os famosos pimentos) e conhecer a Fundação de Camilo José Cela, autor de “Mazurca para dois mortos”, Prémio Nacional de Literatura (1984) e Prémio D. Dinis, atribuído pela Fundação da Casa de Mateus. O primeiro desejo foi cumprido. Cheguei a Padrón ainda a tempo de visitar a Casa/Museu Rosalia de Castro, repositório de recordações, memórias e lugar de reencontro com uma das escritoras e poetisas mais importantes da nossa contemporaneidade. A emoção tomou conta do lugar. Por falta de tempo, já não pude visitar a vetusta Fundação de Camilo José Cela, mas em Padrón, um dos jardins principais faz a sua evocação e memória

A última etapa Padrón/Santiago de Compostela, já foi uma espécie de “Passeio no Parque”, cerca de 25 km, por entre bosques, encostas, aldeias com casario muito antigo, cruzeiros e alminhas. E quando lá de longe, vislumbro a parte alta da torre sineira da Catedral o meu caminho é outro, os dias de azáfama e as noites mal dormidas ganham outro sentido, mais ainda, quando entro na Catedral e cumpro a promessa, ou o desejo secreto de me deixar envolver na mística e espiritualidade de Santiago. Não há um Caminho. Antes, vários caminhos e confluências. Cada um faz o seu como entende e ao seu ritmo. Com fé, descoberta, reencontro consigo próprio num exercício salutar de liberdade e conhecimento

Heróis e cumplicidades

Uma nota final para acrescentar o seguinte: no fim desta jornada fiquei mais rico do que estava antes da partida. Fui só, mas nunca andei só. Pelo caminho, encontrei gente maravilhosa, cúmplice, até fiz amigos, mas o meu herói nesta maratona foi um jovem vindo da Ucrânia, deficiente físico de uma perna. Fez um esforço incrível e com o auxílio de duas muletas ortopédicas conseguiu andar centenas de quilómetros. Por várias vezes, fui-me cruzando com ele e reparei no enorme esforço físico despendido, apenas atenuado com a  ajuda de duas compatriotas.

Tal como eu, chegou à Praça do Obradoiro numa tarde de chuva miudinha, cansado, feliz e com um sorriso enorme. Nem foram precisas grandes palavras para descrever o contentamento estampado no rosto. O santo padroeiro acabou de fazer mais um milagre. Fazer o Caminho a Santiago já deixou há muitos séculos, de ser sinónimo de expiação de penas e castigos. Compostela é um lugar santo, fé, religiosidade, encontro de culturas. O meu foi tudo isto e muito mais: uma mistura de sentimentos, emoções, descobertas.

Manuel Vitorino

Manuel Vitorino

Jornalista

Nasceu no Porto (Portugal). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui a Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Escreveu durante anos sobre cinema no jornal «O Primeiro de Janeiro» e depois, trabalhou quase 25 anos, no Jornal de Notícias. Depois da cidade, gosta do Futebol Clube do Porto,  mas também de caminhadas (adora o vale do rio Bestança, no Norte do País) e viajar pelo Mundo.
A Galiza é uma região onde gosta sempre de voltar e a Itália o seu destino de eleição. Adora Arte, música clássica, mas também música popular, cinema e ópera, museus, cidades com património. E escrever sobre as cidades, as suas gentes, gastronomia, culturas e tradições.

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